Arquivo da categoria: Versos Poéticos

VERSOS POÉTICOS – Deixe Tudo como Está

  •  Ouvi dizer que alguém, com o seu nome,
  • Ligou aqui pra casa,
  • Querendo falar comigo.
  • Fiquei nervoso – mais “pazzo” do que costumo -,
  • E fui me aconselhar com o meu coração.
  •  
  • Juntos, ficamos ponderando:
  • Será que foi trote; ou terá sido ela mesma!
  • Mas para falar mais o quê, me perguntou ele!
  • Será que iria lhe dizer que ainda lhe quer bem
  • Ou, ao contrário, que já está noutra…
  • Que é melhor lhe esquecer.
  •  Mas, e se for para lhe dizer do que gostaríamos,
  • Talvez a gente morra de emoção,
  • Talvez a gente morra de felicidade.
  • Mas, se ao contrário, lhe contar do que não queremos ouvir,
  • Aí então o risco é certo:
  • Morte de tristeza, morte de decepção.
  • E pode ser que de sobra ainda pare de aparecer nos seus sonhos,
  • Como faz, toda vez que você dorme,
  • E volta a ser, como era, amiga, fada, angélica.
  •  
  • Por fim, recomendou, deixe tudo como esta.
  • É melhor.
  • Não vale a pena nem sequer saber se era ela mesmo
  • – e o que quer agora –
  • Para que,
  • Lançar em risco o resto de alegria que sobrou em sua ausência?
  • Para que?
  • Para que, afinal!

VERSOS POÉTICOS – Hora de Nascer Outra Vez

  • Ontem, fiz aniversário.
  • Atendi telefonemas, telegramas abri.
  • Fui abraçado e abracei,
  • Beijei e fui beijado.
  • Depois, cansado, já meio embriagado,
  • Apaguei a luz e, no escuro, fiquei recordando:
  •  
  • Até aos dez anos,
  • Percebi da diferença dos sons, das palavras e das pessoas.
  • Comecei a conviver com  mudanças
  • E aprendi a guardar lembranças;
  •  
  • Até aos vinte,
  • Ganhei tamanho, jeito e sexo de homem.
  • Ouvi dizer que o planeta terra era azul.
  • Conheci e gostei da primeira mulher
  • E descobri que era poeta;
  •  
  • Até os trinta,
  • Na mecânica do mundo,
  • Ao ter à mão régua e compasso,
  • Aprendi que é mais fácil ter como meta a linha reta.
  •  
  • Até os quarenta,
  • Perdi cabelos, sonhos e pessoas  queridas.
  • Em compensação, chegaram novos sonhos,
  • Marcas do tempo,
  • Outras pessoas
  • E até um pé de meia
  • – que, às vezes, teima em querer se fazer roto – .
  •  
  • E para os que ainda ficaram de vir,
  • Sabe Deus, tentarei:
  • Desfrutar coisas boas da vida que ainda não pude ter
  • – mas que a toda mão me prometo -,
  • Alimentar a curiosidade de saber como vão os que gosto,  e que comigo não forem;
  • Ver comemorados, todos os anos, o passar de cada um;
  • Sentir maior o prazer com a minha terra,
  • Com a minha casa,
  • Com o meu cavalo,
  • Com o meu cachorro; e
  • Finalmente, conhecer, namorar e casar
  • – como qualquer justo –
  • Com a Paz, que chamarei de minha.

 

VERSOS POÉTICOS – Coração Marinheiro

  • Nasci marujo,
  • Num subúrbio veneziano da América do Sul,
  • Onde me deram a conhecer a felicidade.
  • Cresci devagar, bem devagar,
  • Contando cada dia, cada mês, cada ano,
  • Para crescer de uma vez
  • Para enfim poder viver,
  • Em definitivo,
  • Com o mar.
  • Mas, ele, 
  • E o seu parceiro – o vento,
  • Não me aceitaram, não me acolheram.
  • Timão e vela, conhecimento não tomaram que eu poderia lhes dar ordens,
  • Que deveriam me obedecer.
  •  E virei marujo de escritório
  • – com paisagem do mar na parede –
  •  E virei marujo de fundo de quintal
  • – com marca da frustração no coração –
  • Minha grande vocação.

 

VERSOS POÉTICOS – Na Minha Vida Já Passou Tanta Coisa

  • Na minha vida já passou muita coisa:
  • Amores insensatos, aos montes;
  • Amigos aparentes, às pencas;
  • Emoções fugazes, aos borbotões;
  • Alegrias fugidias, aos quilos;
  • Tristezas incandescentes, às toneladas.
  •  Passaram, é verdade,
  • Mas deixaram lembranças e feridas
  • E, n’alguns casos, marcas do tempo,
  • Que não cicatrizam nunca
  • E que, até hoje,
  • Ainda coçam,
  • Ainda ardem,
  • Ainda queimam.
  • Basta um gesto,
  • Basta um lugar,
  • Basta uma situação,
  • Basta uma canção.

VERSOS POÉTICOS – Anjo de Genève

  • Há pouco, acho que vi um anjo
  •  – “Genevoise” –
  • Aqui, em Genève,
  • Que nem notou em mim
  • E que chegou e partiu,
  • Com um sorriso contido
  • – como uma aparição de Maria -.
  • E,
  • Neste estado de graça,
  • Que a angélica graça,
  • De graça me deu,
  • Retiro-me da cadeira de vime,
  • Da visão estética do lago Léman,
  • Do copo – de cerveja suíça, “cardinal, moment d’amitié” -,
  • Do meu corpo mesmo,
  • E lanço-me, em pensamento,
  • Como do Disney, o Peter Pan,
  • À terra da minha infância
  • – do outro lado do mundo -,
  • Onde aprendi quase tudo (ou o tudo do quase),
  • Onde já foi meu lugar.
  •  À minha “Neverland” já cheguei:
  • O Recife, da minha meninice;
  • O Recife, dos subúrbios da minha infância;
  • O Recife, do meu coração;
  • O Recife, dos bairros ilha da minha adolescência,
  • O Recife, de ruas de nome poético,
  • Que até hoje só vi por lá:
  •       Rua do sol;
  •       Rua da união;
  •       Rua da glória;
  •       Rua da saudade;
  •       Rua da felicidade… –
  • Que medo que um dia destes,
  • Por decreto ou lei municipal,
  • Virem rua doutor fulano de tal.
  • E,
  • Se estou em Recife,
  • Estou com os seus cantores,
  • Estou com os seus poetas:
  •  
  • Alceu (todo seu) Valença
  • – com “na primeira manhã que te perdi”,
  •              Acordei mais cansado que sozinho”.
  •  
  • Antônio Maria
  • – com “Voltei Recife!”.
  •    Foi a saudade que me trouxe pelo braço”.
  •  
  • Ascêncio Ferreira
  • – com  “Vou danado pra  Catende,
  •    com vontade de chegar”.
  •  
  • Carlos Pena
  • – com  “São trinta copos de chope,
  • São trinta homens sentados,
  • Trezentos desejos presos,
  • Trinta mil sonhos frustrados.
  •  
  • Nelson Ferreira
  • – com “Você diz que gosta de mim”,
  • Mas, só pode ser brincadeira de berlinda.
  • Por que você mente tanto assim?
  • Quem vai pra farol é o bonde de Olinda!”
  •  
  • Capiba
  • – com “Mas, nestes dias de carnaval,
  • Para mim, você vai ser ela.
  • Com o mesmo perfume, a mesma cor.
  • A mesma rosa amarela.”
  • João Cabral
  • – com “Somos todos severinos”,
  • Iguais em tudo na vida,
  • Na mesma cabeça grande,
  • No mesmo ventre crescido,
  • No mesmo sangue de pouca tinta”.; e
  •  
  • Finalmente Bandeira – Manuel Bandeira –
  • Com o seu verso conciso,
  • Com os seus personagens fora do meu tempo,
  • Mas, contemporâneos da minha saudade:
  • Teotônio Rodrigues, muito velho, com o pincenê na ponta do          nariz;
  • Joana louca de Espanha, rainha e falsa demente, ainda contraparente da nora que nunca teve;
  •  Dona Aninha Viegas, sua vizinha;
  •  E Tomásia, Rosa e Irene (Irene preta, Irene boa, com vergonha de entrar no céu…).
  •  
  • Mas, Bandeira não me deixa ficar no Recife.
  • Em seus versos, me carrega ao Rio de Janeiro,
  • Onde domiciliou o seu tísico físico,
  • Onde, às vezes, refugiou o seu sentimento
  • E, se digo às vezes, é porque sentimento de poeta
  • É como o seu pensamento,
  • Não fica em lugar nenhum.
  • É daqui pra lá, é de lá pra cá.
  • Atrás de registrar, de testemunhar, da emoção -.
  •  
  • Agora no Rio,
  • Estende-me um encontro com o seu amigo Drummond,
  • Também de mim sempre perto, contando, criando, inventando Estórias,
  • Que a minha mão rebelde nunca soube dizer.
  • E, resoluto, mesmo que, mineiramente, não goste,
  • Peço-lhe que me conte,
  • Que me oriente, que me ajude a encontrar,
  • Da minha vida, a Maria Julieta,
  • Que pra mim tenha tempo,
  • Que me dê ouvido,
  • Que responda ao meu olhar,
  • Pra poder com ela me entreter,
  • Pra poder com ela me entender,
  • Pra poder com ela me corresponder. 
  •  Mas, que diacho (como se dizia em Recife)!
  • Tenho que voltar a Genève.
  • O garçon, insensível, malvado,
  • Mesmo sem ser provocado
  • A “l ’addition” já me estendeu.
  • E preciso andar ligeiro,
  • Logo mais, à noitinha,
  • Tenho marcado um jantar,
  • Com o mesmo anjo suíço,
  • Que voltou e, em mim,
  • Resolveu atenção prestar,
  • Diz-se chamar Yssia,
  • As 19.30, como boa suíça, vai passar no meu hotel.
  •  Pra compensar toda esta viagem
  • – tão longa e tão cara –
  • Um bom vinho, a vista do Lac Léman, todo iluminado, terei com certeza.
  • No fim da noite – ou no meio dela – quem sabe,
  • Mereça do anjo, o seu abraço, o seu beijo, o seu “savoir faire”. 
  • Da sua beleza,
  • Dos seus afilados traços, da sua divindade,
  • Acho que vou gostar,
  • Acho até que já gosto.
  • Mas, do seu gosto,
  • Provavelmente sem pimenta nem sal
  • – como adequado a um anjo –
  • Bem, disto, ainda não sei…

 

VERSOS POÉTICOS – Almas Convexas

  • Imagine uma pessoa que gosta do silêncio,
  • Do pensar, da garimpagem verbal.
  • Outra, que ficar calado é estranho
  • – sintoma do não estar bem -,
  • Que palavras são só caminhos
  • Ao que se tem a dizer.
  • Imagine uma pessoa que já não tem tempo
  • Pro tempo de apurar a razão,
  • Que se sente atrasado ao encontro
  • Que marcou com a paz.
  • Outra,  que a falta de linearidade aos feitos,
  • Faz falta, incomoda,
  • Que tem recursos pra não comprar barato
  • – a paz, se quiser, que espere por ela, adiante… -.
  • Imagine uma pessoa que pelo mar se fascina,
  • De se sentir balançando em suas vagas gosta
  • E, secretamente, guarda planos de vida com ele.
  • Outra, que o seu simples cruzar é tarefa a cumprir.
  • – prazer, não percebe em seu jogo
  • E, longe dele, se sente melhor -.
  • Estas duas pessoas se conheceram,
  • Pretenderam juntas
  • E, até se amaram.
  • Mas, as diferenças não lhes davam trégua,
  • Uma sintonia de intermédio, não conseguiam.
  • E se desentendiam por nada
  • E, quase por tudo.
  • E asperezas trocaram
  • E mágoas permutaram
  • E se separaram…
  •  Depois, ao se voltarem ao caminho das suas vidas,
  • Quando se lembram, uma da outra,
  • Não sentem nada, nada,
  • Apenas é um tempo virado,
  • Algo que já lhes passou.

VERSOS POÉTICOS – Amanha de Manhã, Bem Cedo

  • Amanhã mesmo, bem cedo,
  • Enquanto a cidade acorda,
  • Irei andar no parque.
  • Caminharei com alguém conhecido e,
  • Dentre os familiarmente estranhos,
  • Em alguém,
  •  reparar, procurarei.
  • E,
  • Quando estiver cansado,
  • Ou chegar a hora de voltar pra casa,
  • Se congestionada ainda estiver,
  • No espelho retrovisor de algum carro do caminho,
  • A imagem do meu rosto, e da minha vida,
  • Decidirei de quando fazer
  • A longa viagem que preciso,
  • Acompanhado de mim mesmo,
  • Prestando atenção nas conversas dos outros,
  • Como se fossem minhas…