ASPECTOS HISTÓRICOS E CULTURAIS DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA NA COSTA DO DENDÊ – 1a. PARTE


PARTE I

Dois anos após Cristovam Colombo desembarcar, em 12 de outubro de 1492, na ilha de Guanaani, nas Bahamas, espanhóis e portugueses se uniram, para firmar o Tratado de Tordesilhas, firmado, com a chancela papal, na vila espanhola do mesmo nome, localizada a província de Valladolid.PI 02Aquele tratado estabelecia um meridiano imaginário distante 370 léguas (2.220 quilômetros a oeste) das ilhas de Cabo Verde, nas costas da África. As terras a oeste daquela linha imaginária pertenceriam à Espanha, e as a leste seriam de Portugal.

O Meridiano de Tordesilhas passava pelo Brasil, nas atuais cidades de Belém(no Pará) e Laguna (em Santa Catarina).PI 03

Só que as outras coroas europeias que tinham também suas frotas e ficaram fora daquela partilha, não ficaram nem um pouco satisfeitas com a divisão do novo mundo em espanhol e português!

Os franceses, os ingleses e os holandeses, irresignados com o tal acordo, passaram provocativamente a também visitar as Américas, e extraírem madeiras, aprisionarem animais e índios para ser vendidos na Europa, como se fosse terra de ninguém, o que intranquilizava as duas cortes (espanhola e portuguesa) que, pela autoridade papal  foram aquinhoadas com o bom bocado que, pelo Tratado de Tordesilhas, deveria só lhes pertencer.

No caso português, a ocupação do território brasileiro era uma necessidade inadiável a cada dia que se passava, face aos prejuízos econômicos que as embarcações francesas, inglesas e holandesas estariam, supostamente, trazendo à corte lusitana, com a exploração paralela e desautorizada que faziam.  Mas, não havia suficiente dinheiro nos cofres da coroa portuguesa para financiar aquela intentona.

Para piorar a situação das finanças do reino português, em 1531 um terremoto atingira Lisboa, sede do reino português, e os prejuízos materiais foram terríveis. A reconstrução dos estragos consumia um horror de dinheiro e não havia, por isso, recursos para exploração econômica do Brasil às custas da coroa. Mas a colonização, ou a tomada de posse do território português, que cada vez mais risco corria de ser tomada por outras coroas europeias, era uma necessidade imperiosa que Portugal sabia que teria de fazer, o quanto antes!

 Os ingleses, os holandeses e os franceses de todas investidas feitas na América do Sul só conseguiram mesmo ficar com os quinhões das Guianas, que os portugueses nunca conseguiram lhes tomar de volta!

Em 1532, quarenta anos após a chegada de Colombo às Bahamas, foram fundadas as primeiras vilas no Brasil: São Vicente, no litoral paulista, e Piratininga, onde hoje está a cidade de São Paulo.  Aliás, não só no Brasil. Na verdade, os primeiros estabelecimentos europeus em toda a América do Sul!

Se de um lado São Vicente era um excelente porto estratégico marítimo-fluvial que permitia o rápido acesso ao interior brasileiro, do outro, a vila de Piratininga, nome dado pelos indígenas à região delimitada pelos rios Tietê, Tamanduateí e Anhangabaú, onde hoje está a cidade de São Paulo, estava estrategicamente protegida pela barreira da Serra do Mar. Tinha a vantagem de ficar às proximidades do leito do rio Tietê, um dos formadores da bacia do Prata e que também era porta de entrada para os sertões brasileiros.Costa do Dendê e do CacauA propósito, nesse mesmo tempo, a Costa do Dendê está entre as mais antigas áreas de ocupação e precursora do povoamento do Brasil. As primeiras notícias sobre estas terras férteis e de águas abundantes remontam à terceira década do século XVI, quando Martim Afonso de Souza, militar e administrador colonial português, a mando do rei D. João III, o Colonizador, comandou uma expedição (1530-1533) de cinco navios, com a tríplice missão de explorar a costa litorânea do Maranhão ao Rio da Prata e impedir, ou combater, o comércio de pau-brasil pelos franceses, fundando os primeiros núcleos lusitanos no Brasil quinhentista, em seqüência a São Vicente e Piratininga

Aliás, Martim Afonso de Sousa foi o primeiro europeu a pisar nas praias da Costa do Dendê. Com razoável certeza, pode-se afirmar que esse colonizador, nascido no ano da descoberta do Brasil, ancorou sua frota no Morro de São Paulo, que, para os que não sabem, é uma falésia de arenito, que os índios tupiniquins denominavam de ty-nhã-ré (o que se adianta na água).  Na verdade, trata-se de uma ilha litorânea, separada do continente por um braço de mar (Canal de Taperoá) que, aos olhos dos índios, parecia um pedaço de terra “que avançava na água”. A prefeitura de Cairu bem que poderia pesquisar o exato local do fundeio e onde puseram os pés, os primeiros portugueses, e fazer no local algo que pudesse ser valorizado turisticamente!

Enquanto isso, na corte portuguesa da época, as pressões filosófico-religiosas sobre o rei D.João III, rei de Portugal, forçaram o monarca em meados de junho de 1533, a constituir uma força-tarefa de navios para levar a Roma o bispo católico D. Martinho, para que, na qualidade de embaixador português junto à Santa Sé,  promovesse as tratativas para levar a Inquisição às terras portuguesas – um clamor do clero e da nobreza frente ao crescente poder dos comerciantes judeus, que cada vez mais punha em risco o casamento igreja-estado na corte lusitana!

No início de agosto, a frota portuguesa que conduzia o embaixador religioso em direção a Roma entra no porto espanhol de Málaga para se reabastecer. Quando já se preparava para seguir viagem, percebeu a entrada de uma nau francesa, de nome Peregrina que atracou ao lado, onde estava as naus que compunham a comitiva lusitana. Os portugueses logo se deram conta que a nau francesa estava vindo da América, e passaram a desconfiar que viesse do Brasil.

Ao saber que os franceses precisavam de víveres, o comandante português espertamente os ofereceu de graça, o que foi prontamente aceito pelo capitão francês. Depois, já navegando juntas em águas internacionais, como naus amigas, os portugueses usaram de estratagema para prender o navio e a tripulação francesa e se espantaram com o que acharam nos porões do navio. Havia 15 mil toras de pau-brasil, 3 mil peles de onças, 600 papagaios, 1800 quilos de algodão e várias quartas de óleos medicinais de plantas brasileiras!

A prisão da nau Peregrina foi a gota d’água para que o rei português D. João III e seus assessores concluíssem que os acordos anteriormente firmados estavam sendo desobedecidos e que não havia alternativa: os portugueses teriam que imediatamente colonizar o Brasil, se não quisesse perdê-lo para outra coroa.

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