ASPECTOS HISTÓRICOS E CULTURAIS DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA NA COSTA DO DENDÊ – 2a. PARTE

PARTE II

A prisão da nau francesa Peregrina por força-tarefa portuguesa, em águas mediterrâneas, nau aquela que transportava mercadorias vindas do Brasil, foi definitiva para se pensar em Lisboa da imediata necessidade de se colonizar o Brasil.

Aliás, aquele aprisionamento ocorreu praticamente de forma acidental, quando uma força-tarefa portuguesa que suspendera do Alentejo em direção ao Vaticano, para conduzir  o bispo católico D. Martinho, para que aquele religioso, na qualidade de embaixador português junto à Santa Sé,  promovesse as tratativas para levar a Inquisição às terras portuguesas, e foi definitivamente a gota d’água  que faltava para que o rei português D. João III e sua corte concluíssem que os acordos anteriormente firmados, em que a França se comprometia a respeitar o Tratado de Tordesilhas, não eram obedecidos e que não havia mais alternativas: os portugueses teriam que imediatamente colonizar o Brasil ou iriam perdê-lo para outras bandeiras.

Como não havia dinheiro nos cofres da coroa portuguesa, não demorou muito para que se decidisse que a colonização teria que ser feita com recursos da iniciativa privada. A fórmula encontrada foi a de se dividir o litoral em lotes com 50 leguas (300 km) de extensão de frente, sendo que para o interior a ordem era a de ocupar e explorar o que fosse possivel. Os concessionários foram denominados Capitães-Donatários e poderiam livremente explorar as riquezas que aparecessem, em nome do rei, com direito a transmitir aos seus herdeiros os direitos outorgados. Dois séculos antes, os portugueses tinham usado o mesmo sistema em território português continental, no Alentejo e no Algarves, após terem tomado aqueles territórios das mãos dos árabes, durante a reconquista cristã. E no século XV, ou seja, um século antes, a coroa portuguesa permitira a exploração, pela iniciativa privada, das ilhas de São Tomé, Príncipe e Fernando Pó, em frente à costa da Guiné, na África equatorial, nos moldes em que se tentava fazer no Brasil

Só que, ao contrário do que acontecera nos dois casos anteriores, em que as ocupações foram concedidas aos nobres da corte, naquele momento, no caso do Brasil, a nobreza lusitana não demonstrou nenhum interesse no projeto, de forma que os 15 lotes de 50 léguas (300 km) cada um de litoral formaram só 12 capitanias e tiveram que ser entregues a militares ligados à conquista da India e da África e altos funcionários da corte portuguesa.

Dos doze capitães-donatários, oito eram militares (conquistadores de territórios para a coroa portuguesa) e quatro altos funcionários da corte. Do total, apenas quatro já haviam estado no Brasil e, durante toda a donataria, só oito se interessam em ter contato pessoal com as terras tupiniquins. Isto é, quatro jamais puseram os pés por aqui! Tanto Jorge Figueiredo Correia como Lucas Giraldes, que o sucedeu, e receberam a capitania de Ilhéus, onde fica a atual Costa do Dendê, jamais vieram aqui!

Segundo o historiador Francisco Adolfo Vernhagen, a tarefa dos capitães-donatários era enorme e o rei D. João III só lhes dera mesmo as terras e o poder de explorá-las. Por causo disso, alguns daqueles donatários perderam as fortunas que tinham adquirido no reino ou na Índia, A respeito da epopeia daqueles desbravadores (para muitos, meros invasores das terras indigenas), Duarte Coelho Pereira, um dos donatários aquinhonhados, escreveu: “Somos obrigados a conquistar por polegadas a terra que Vossa Alteza, D. João III, nos fez mercê por léguas”.

Portanto, não é de todo estranho que das doze capitanias, apenas duas conseguiram florescer: Pernambuco e São Vicente (hoje Estado de São Paulo).

Há também sobre isto um fato curioso: com os donatários e colonos vieram, a partir de 1535, e em enorme quantidade, prisioneiros degredados, incursos em Portugal em gravíssimos crimes e que foram, por isto mesmo, condenados às penas de degredo, banimento e exílio. Portugal, ou melhor, a corte, para deles se livrar, espertamente os mandou para cá, durante o período de donataria, e aquela escória humana terminou por se transformar em nossos principais ancestrais, não sem antes terem dado um bocado de trabalho aos donos dos engenhos, colonos e familiares (em número muito menor) que aqui também vieram!

Enquanto os índios tupiniquins eram dóceis, afáveis, curiosos sobre os hábitos europeus e colaborativos na construção dos engenhos, cultivo da cana e feitura do açúcar  bruto e do melaço, desde que isto não lhe trouxesse desonra, os degredados, segundo o donatário Duarte Coelho, eram a peçonha que envenenava a nova terra, pois condenados as penas de expulsão de Portugal, por roubos e assassinatos, eram dados à mentira, à furtividade, e à traição. Mas como eram em grande número, em relação aos colonos, foram os grandes responsáveis pelo sangue português que se miscigenou com o das nossas nativas, gerando centenas de mamelucos, nossos ancestrais, que são a base da nossa etnia brasuca!

Regiões que economicamente estagnaram no tempo, como a Costa do Dendê, e que o sangue decorrente da miscigenaçao inicial com o degredado não foi refrescado por novos imigrantes de outra linhagem (isto é, que eugenicamente não tiham os mesmos problemas de caráter que os degredados portavam, segundo a teoria de Cesare Lombrosio) transmitiram aos seus descendentes graves e indesejados desvios de conduta, além da cultura da esperteza e da dissimulação.

Os mestiços dos portugueses com índias, com definido valor demogênico e social, formados pelos primeiros coitos, não oferece senão o interesse de terem servido de calço ou de forro para a grande sociedade híbrida que ia constituir-se, assevera Gilberto Freyre em Casa-grande & Senzala.

Segundo ainda o grande mestre de Apipucos (Gilberto Freyre) a carga genética decorrente da miscigenação com a matriz de degredados só não foi pior na formaçao da nossa raça, porque o sangue do negro africano (com caracteristicas dispares e bem melhores que o degredado portugues ou mesmo que o marinheiro frances, ingles ou holandes) refrescou uma parte da descendencia mameluca, transmitindo caracteristicas eugenicamente diferentes, para nossa sorte. No entanto os mamelucos da base histórica colonial, que não se beneficiaram com o melhoramento genetico do sangue africano, estão aí, até hoje, dando mostras das indesejadas caracteristicas de esperteza, oportunismo e deslealdade, mesmo entre si, não raro encontradas no dia a dia da Costa do Dendê!

A nossa Costa do Dendê, entre a Capitania da Bahia, ao norte, e a Capitania de Porto Seguro, ao sul, onde hoje vivemos estava incrustada na donataria ou Capitania de Ilhéus, que medindo 50 léguas (300 quilômetros) no litoral, começava na foz do rio Jaguaribe (aqui bem pertinho) e ia até a barra do rio Poxim, nas proximidades da ilha de Comandatuba, onde hoje há um portentoso empreendimento turistico-hoteleiro, que tem o mesmo nome. Aliás, aqueles marcos históricos bem que poderiam  ser mais valorizados turisticamente, se preocupação com o turismo houvesse mesmo por aqui!.

 A Capitania de Ilhéus foi concedida a Jorge Figueiredo Correia, escrivão da Fazenda Real e  um dos homens mais ricos de Portugal da época, sendo que o foral de sua capitania lhe foi outorgada no dia 1º de abril (coincidentemente, hoje tido como o dia da mentira!) de 1535.

Segundo Gilberto Freyre, o ambiente em que começou a vida brasileira foi de intoxicação sexual. O europeu saltava na terra tupiniquim escorregando em índia nua. Os padres precisavam ter cuidado redobrado, senão atolavam o pé em carne morena. A tentação dos tropicos era demais. Muitos foram os clérigos que se deixaram contaminar pela devassidão,  já que segundo a voz corrente, não havia pecado no lado de baixo do Equador. Era o deleite carnal no paraíso!

O padre José de Anchieta, sobre isto, assim se refere: “Las mujeres andan desnudas y no saben negar a ninguno mas aun ellas mismas acometen y importunan los hombres hallandose com ellos em las redes, porque tienen por honra dormir com los Xianos.”

As mulheres índias, nos relatam Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda,  eram as primeiras a se entregarem aos brancos. As mais ardentes íam logo se esfregar nas pernas brancas daqueles homens diferentes (do que conheciam até então), já que elas, em sua ingenuidade e em maravilhosa permanente nudez, consideravam os europeus como deuses e se entrelaçarem com eles! Era para elas uma espécie de ato de honra! Mas, davam-se também ao europeu por um pente ou um caco de espelho.

Mas, o amor, diz o mestre Freyre, era só físico; com gosto só de carne, dele resultando filhos que os pais cristãos pouco se importaram de educar ou de criar à moda européia ou à sombra da igreja. Meninos e meninas cresceram à toa, pelo mato; alguns tão ruivos e de pele tão clara, que descobrindo-os mais tarde a eles e a seus filhos entre o gentio (indios pagãos, não cristãos e não civilizado) os colonos facilmente os identificavam como descendentes de normandos e bretões, ao invés de indios puros ou mestiço portugues, geralmente de sangue mouro, que lá ficaram durante sete séculos.

Não só os portugueses, mas também os franceses e de outras nacionalidades que aqui vinham, deram-se na nova terra ao luxo que na Europa só os nobres e burgueses ricos era possível ter: o de se cercarem de muitas mulheres.

Se da numerosa progênie mestiça, muitos foram absorvidos pelas populações tupiniquins, outros conservaram-se numa espécie de meio-termo entre a vida selvagem e a dos traficantes e flibusteiros, que aqui vinham em desobediência ao Tordesilhas.

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