ASPECTOS HISTÓRICOS E CULTURAIS DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA NA COSTA DO DENDÊ – 3a. PARTE

PARTE III

A nossa Costa do Dendê corresponde a trecho do litoral que pertencia à Capitania dos Ilhéus, que media 50 léguas (300 quilômetros) de litoral, começando na foz do rio Jaguaribe e indo até a barra do rio Poxim, nas proximidades da ilha de Comandatuba. A capitania de Ilhéus tinha como vizinhas a capitania da Bahia, ao norte, e a capitania de Porto Seguro, ao sul.

A Capitania dos Ilhéus, por falta de interesse empresarial para explorá-la, foi doada ao escrivão da Fazenda Real, Jorge Figueiredo Correia, que também era um dos homens mais ricos de Portugal da época, e curiosamente recebeu o foral de posse no dia 1º de abril (nos tempos atuais comemorado como o dia da mentira) de 1535.

Jorge de Figueiredo Correia, o donatário da Capitania de São Jorge dos Ilheus, entretanto, jamais pensou em trocar o seu elevado cargo de Escrivão Mor da Corte Lusitana pelos nossos mosquitos, pela abundância das carnes morenas das nossas índias, e pelas agruras e desconforto da nova terra. Embora disposto a investir na colonização da sua Capitania, vez que dinheiro não lhe faltava, manteve-se prudentemente, à distância, na Corte. Em seu lugar, enviou um seu sequaz, o espanhol (castelhano) Francisco Romero que, há anos, vivia em Lisboa, com fama de homem duro e valente e por ele foi contratado como seu lugar tenente.

Segundo Pero Borges, Ouvidor-Geral do Brasil naquela época, Francisco Romero era um bom homem para o combate, mas não para o mando, porque era ignorante e fazia aos homens (colonos) o que não devia, pois era autoritário. Ainda segundo o Ouvidor-Geral, Romero era um mal administrador, embora “acordado e experimentado para cousas de guerra”. E guerra foi o que não lhe faltou em nossa região, como veremos adiante!

Francisco Romero partiu de Lisboa, em 1535, em direção ao Brasil trazendo, às custas de Jorge Figueiredo Correia, três naus (navios de madeira com capacidade maior que as caravelas, que eram de pequeno porte) e duzentos e cinqüenta homens. Segundo os pesquisadores, deve ter sido gasto do bolso de Jorge Correia, o mínimo de 150 mil cruzados (moeda de ouro ou prata que valia quatrocentos reis). Para se ter uma ideia de grandeza, como o salário de um marinheiro era de dez cruzados (quatro contos de reis) por ano, o Escrivão Mor (donatário da Capitania) deve ter investido o suficiente para pagar o salário de 15 mil marujos durante um ano!

A frota em que veio Francisco Romero, ao chegar ao Brasil, aportou na baía de Todos os Santos, provavelmente onde hoje está a cidade baixa de Salvador.. Depois de alguns dias de descanso, partiu para o sul para ocupar a Capitania que iria governar, em nome do donatário, fazendo a sua base inicial na Ilha de Tinharé. Isto é, exatamente no local que hoje conhecido como Morro de São Paulo.

Enquanto os colonos se dedicavam a desbastar uma clareira naquele local, para as primeiras construções, Francisco Romero enviou um destacamento para explorar o litoral mais ao sul da Capitania, que ía até a foz do rio Poxim, onde fica hoje a ilha de Comandatuba. Após algumas semanas, o grupo retornou com a notícia de que encontrara um local mais favorável do que onde estavam, (no Morro de São Paulo), para se fundar a sede da Capitania.

Segundo o historiador contemporâneo Eduardo Bueno, o lugar era estrategicamente perfeito. Ficava em uma península, abrigado por quatros ilhéus, onde o rio Cachoeira desaguava no mar, após dar voltas ou serpentear pelo manguezal. O lugar oferecia excelente ancoradouro, abrigado do vento sul por um promontório (ponta de terra elevada que se lança ao mar) que, pela margem direita do rio, avançava mar adentro.

Em homenagem ao patrão (Jorge de Figueiredo Correia) e em referência aos quatro ilhéus (rochedos no meio do mar)  que haviam no local, Francisco Romero denominou o local de Vila de São Jorge dos Ilhéus. Por isso é que até hoje a cidade se chama  São Jorge dos Ilhéus!   Só que eles, portugueses, não sabiam que ali, exatamente ali, estava o território base da terrível tribo indígena Aimoré, que mais adiante saberemos o quanto trouxe de desgraça aos primeiros colonizadores portugueses!

De início, tudo corria bem!. Utilizavam, os portugueses, a mão de obra tupiniquim, que, pacífica e cordata, nenhuma resistência oferecia à colonização e, às custas de presentes, forneciam a mão de obra que o colonizador precisava para as construções civis, plantios de cana, construção dos engenhos, derrubada de árvores e aprisionamento de animais silvestres. Um ano depois, Romero já enviava a Portugal uma nau cheiinha de pau-brasil!  A vila estava instalada, fortificada e até já contava com uma capela.

Como as coisas iam bem, em 1537, o Escrivão Mor Jorge de Figueiredo Correia, buscando parceria nos empreendimentos de produção de açúcar distribuiu três sesmarias, sendo uma parceirizada com desembargador Mem da Sá (que depois se tornou Governador Geral do Brasil), outra com o banqueiro florentino Lucas Giraldes e a terceira com o Tesoureiro Mor da Corte, Fernão Álvares de Andrade, que, ao mesmo tempo  também era donatário da Capitania do Maranhão.

Colonos e índios (tupiniquins) mantiveram, no início, uma convivência pacífica em toda a Capitania de São Jorge dos Ilhéus. Duas vezes por ano, Jorge de Figueiredo Correia mandava para a sua Capitania milhares de anzóis, espelhos, facões machados e miçangas.

Francisco Romero, o seu administrador, intermediava o troca-troca entre os colonos e índios, o que garantia aos primeiros os mantimentos e braços fortes dos índios tupiniquins para o trabalho. No entanto, os terríveis índios Aimorés, nômades e arredios, mantinham-se à distância, na mata, sem querer nem aceitar nenhuma aproximação com os portugueses, que nem de leve supunham o quanto poderiam ser perigosos e vingativos.

Francisco Romero, além de não ser português, também era muito rude no trato com os colonos subordinados e tratava-os discricionariamente. Mas, não demorou que os colonos resolvessem se vingar dele!

Certo dia, ao entrar na capela, cometeu a insensatez de, em voz alta, dizer que detestava o crucifixo do altar, em face do mesmo ter sido trazido de Portugal por um seu desafeto. Foi o suficiente para que se criasse a maior confusão, em torno do fato.

Acusado de blasfêmia e heresia, fosse preso, acorrentado pelos colonos e mandado para Portugal para ser julgado pela Inquisição, recém instalada em Lisboal. Ao desembarcar na Corte, graças à intercessão, prestígio e força do seu patrão, Jorge Figueiredo Correia, em pouco tempo foi solto e mandado de volta à Capitania de Ilhéus. Obvio que foi à forra e se vingou dos que tinham ousado lhe aprisionar.

Com o passar do tempo os índios tupiniquins, apesar de dóceis, passaram a ter mais objetos do que precisavam e começaram a exigir, pelos mantimentos e mão-de-obra no trabalho que forneciam aos brancos, mais e mais presentes, em troca. A caça também já começava a escassear nas redondezas das vilas, o que forçava os colonos a se embrenharem cada vez mais na mata em busca de animais e produtos comestíveis. Surgia, então, a necessidade de uma mão de obra fixa nos engenhos de açúcar, que já estavam produzindo açúcar e melaço! Os portugueses, esperta e ingenuamente, tiveram a infeliz idéia de aprisionar índios, com quem conviviam pacificamente há anos. Em pouco tempo, desencadeou-se guerras entre os dois grupos.

Com a necessidade cada vez maior de mão de obra permanente, a prática de aprisionamento de nativos tornou-se freqüente e os colonos, armados e sem saber do perigo que corriam em relação aos índios Aimorés, cada vez mais se aventuravam a penetrar no território deles.   Mas, a reação não demorou muito. Foi imediata e já no segundo semestre de 1546 os ataques indígenas, tanto aos europeus como mesmo a tupiniquins, tornaram-se constantes.

Quanto aos Aimorés, em pouco tempo, a ferocidade deles devastava as vilas das capitanias de Ilhéus e de Porto Seguro, e para aquele tipo de adversidade o colonizador português não tinha remédio, nem sabiam como lidar. Tinham eles, os colonos, que abandonar tudo e fugir se não quisessem morrer!

Em 1570 o senhor de engenho e historiador Gabriel Soares de Souza assim se expressa em seu noticioso sobre o Brasil: “Os oito engenhos que haviam na Capitania de Ilhéus já não fazem mais açúcar. Nem morador há que ouse plantar cana, porque em indo os escravos ou os homens ao campo não escapam da sanha Aimoré, que faz com que fuja toda a gente dos Ilhéus (Capitania) para a Bahia (Capitania), ficando a terra quase que totalmente despovoada. Ilhéus, que fora um vila muito abastada e rica, em que viviam até 500 famílias de colonos agora não conta com mais de cem.

Os índios Aimorés eram muito diferentes dos afáveis Tupiniquins, a quem os portugueses usavam e abusavam, principalmente as mulheres! Primeiro, os Aimorés não aceitavam nenhum contacto com os brancos, fossem eles senhor de engenho, colonos degredados ou religiosos. Não tinha conversa nem presente que os cativassem. Além disso, em combate, eram terrivelmente cruéis! Os poucos aprisionados, preferiam morrer a aceitar comida ou água do colonizador, a quem julgava inimigos, ao invés de deuses como os Tupiniquins. Eram dotados de uma irascibilidade que ninguém supunha nem estava preparado a enfrentar.

Quando atacavam as vilas dos colonos, os Aimorés vinha acocorados,  feito macacos, silenciosos e pintados de preto, para não serem percebidos, e os ataques eram de surpresa, como nas guerrilhas de hoje.

Em questão de poucos minutos, matavam a todos que encontrassem, fosse homem, mulher, criança, padre, índio ou índia tupiniquim. Não tinha perdão, pra ninguém!

Matava a todos com flechadas ou com golpes de pesados tacapes que cruelmente desferiam, sem nenhuma piedade, na cabeça das vítimas. Ainda retalhavam e carregavam a carne humana para a sua alimentação, quando se retiravam, após os sangrentos ataques.

Destruíam tudo que encontrassem pela frente naqueles ataques!

Em pouco tempo os portugueses que sobreviveram fugiram e abandonaram tudo, tanto na Capitania dos Ilhéus, onde estamos, como na vizinha ao sul, a de Porto Seguro, em direção a outras capitanias ou de volta a Europa ou ainda em direção a África.

Até os índios Tupiniquins também caíram em retirada e se embrenharam em direção aos sertões, morrendo de medo dos terríveis Aimorés.

Um verdadeiro flagelo, aqueles ancestrais Aimorés. Ficou tudo deserto, por aqui!

Continua na próxima edição

Bibliografia:

–  Casa-grande & Senzala, Gilberto Freyre, Editora Record.

– Capitães do Brasil – A Saga dos Primeiros Colonizadores, Eduardo Bueno, Editora Objetiva;

–  História Econômica do Brasil, Caio Prado Júnior, Editora Brasiliense;

–  Visão do Paraíso – Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda, Editora Brasiliense.

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