ASPECTOS HISTÓRICOS E CULTURAIS DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA NA COSTA DO DENDÊ – 4a. PARTE

PARTE IV

Com o passar do tempo, a colonização inicial da Costa do Dendê cada vez mais dependia de mão de obra permanente, vez que a mão de obra indígena tinha sempre um caráter temporário e voluntário, dada em troca aos presentes que recebia. E os índios tupiniquins já não se dispunham a trabalhar voluntariamente em troca das ferramentas e quinquilharias que os portugueses lhe davam pelos braços e alimentos que forneciam.

Segundo os antropólogos, na cultura indígena, até hoje, o exercício de atividades agrícolas ou produtivas´é da exclusiva responsabilidade feminina e, de certa forma, considerada desonrosa para o homem. Ele, o índio homem, pode até exercê-la temporária e espontaneamente, como o tupiniquim a fez, no primórdio da colonização,  por  troca aos presentes que recebia, mas logo se entediava e o largava. Já a mulher  índia, embora fisicamente mais fraca que o homem,  é que era culturalmente preparada para o trabalho na agricultura e exercer, nas tribos, as tarefas domésticas.

 A prática de aprisionamento de nativos tornou-se, então, frequente e, após dez anos de colonização, o português colonizador, sem saber do perigo que corria em relação aos índios Aimorés, cada vez mais se aventurava a penetrar no território deles, que correspondia a uma extensão de 100 léguas de costa (600 quilometros) e mato adentro o que quisessem, exatamente onde estavam as Capitanias dos Ilhéus e Porto Seguro.

No segundo semestre de 1546 os ataques indígenas Aimorés tiveram inicio, em retaliação aos aprisionamentos realizados pelos portugueses e logo se propagaram, num crescente, que, em pouco tempo, permanecer nas fazendas e engenhos de açúcar na Capitania de Ilhéus, onde se localizava a nossa Costa do Dendê, tornou-se uma atividade extremamente perigosa.

Em 1550, morre em Portugal Jorge de Figueiredo Correia, o donatário da nossa Capitania dos Ilhéus, e o seu filho herdeiro vende os direitos ao banqueiro italiano Lucas Giraldes, que vivia em Portugal e já era seu parceiro em investimentos em sesmarias de engenhos de açúcar.  Francisco Romero, o homem forte de Jorge Figueiredo, é então substituído pelo feitor Tomaso Alegre, um outro italiano contratado por Giraldes, que mantinha com o patrão uma ativa correspondência.  Há relatos de que, em 1959, Giraldes, já cansado de receber  correspondências recheada das dificuldades, envia uma carta a Tomaso Alegre em que lhe diz: Tomaso, queres que eu te diga: manda o açúcar e fica com as palavras.

O historiador jesuíta Fernão Cardim, por volta de 1580 escreve em seu “Tratado da Terra Gente do Brasil” que os índios Aimorés pelo hábito de andarem pelos matos bravios têm os couros (a pele) muito rijos (grossos), e, para conseguirem isto, se auto açoitam, desde meninos, com cardos (planta nativa em que o caule é coberto de pelos), para que acostumem pele à rigidez da mato bravo.  Não  têm  roças  fixas  e  vivem  de  rapina  e  pela  ponta  de  flecha, comendo até mandioca crua (que contém uma violenta substância tóxica, chamada ácido  cianídrico) sem lhes fazer mal,  e correm muito. Aos  brancos,  quando  atacam,  vêm de assalto, usando  arcos  muito  grandes   e   trazendo  paus  muito  grossos (tacapes), para quebrar de uma só cacetada as cabeças dos oponentes. Quando vêm à peleja, disse Cardim, o fazem escondidos pintados e embaixo de folhas. Mas, não ousam cruzar água, nem tampouco usar embarcações, pois não são dados a pesca. Toda a sua vivenda é a do mato!

Dez anos antes, em 1570, o historiador, e senhor de engenho, Gabriel Soares de Souza assim se expressa em seu relato sobre o Brasil: “Os oito engenhos que existem na capitania dos Ilhéus já não fazem mais açúcar. Nem morador há que ouse plantar cana, porque em indo os homens(colonos) ou escravos (índios) ao campo não escapam da sanha aimoré, que faz com que fuja toda a gente dos Ilhéus (Capitania) para a Bahia (Capitania), ficando a terra quase que despovoada”. Ilhéus que fora um vila muito abastada e rica, em que viviam até quinhentas famílias de colonos, agora não conta com mais de cem.

Ainda segundo Gabriel Soares de Souza, os índios Aimorés eram uma gente esquisita e agreste, inimiga de todo o gênero humano, inclusive dos índios de outras tribos, e pouco se sabia deles e sobre os seus costumes, vez que eram inacessíveis ao contacto de outras pessoas de fora, fossem brancos ou indios doutras tribos.  Eram altos e robustos, de pele clara e grossa, o que se atribui ao fato de só andarem pelo interior da selva, onde os raios solares não penetravam com tanta intensidade, além da pratica de auto açoites que faziam com cardo, para enrijecerem a pele. Possuíam o costume de depilar totalmente o corpo raspando-o com uma “navalha” de taquara.

Viviam permanentemente vagando pela floresta, não somente para coleta de alimentos, mas também pelo seu espírito nômade, sem casa, nem nenhum conforto, nem agasalhos. Dormiam no chão, pois não tinham conhecimento do uso da rede e, quando chovia, procuravam refúgio na copa verdejante das árvores. Além da caça, nutriam-se de frutos e vegetais silvestres, que existiam em abundância na imensa selva da floresta atlântica, e da pesca. Ao que se sabe, só temiam mesmo a água! Isto é, a água dos rios caudalosos e do mar.

         Na guerra dos Aimorés não havia chefes, nem nunca procuravam lutar frente a frente. Pelejavam pelos lados, rastreando pela mata, agachados e de cócoras, armando emboscadas em pequenos grupos.

Quando caíam prisioneiros dos brancos recusavam-se a comer e a beber até que morressem de inanição. Do inimigo branco, nada aceitavam. Preferiam, honrosamente, a morte!

Logo no início dos cruéis ataques dos Aimorés, os colonos das Capitanias dos Ilhéus e Porto Seguro, tentaram se refugiar nas ilhas de Boipeba e Tinharé, aqui na nossa Costa do Dendê, já que os Aimorés temiam aguas profundas e para lá chegarem teriam que navegar ou nadar, o que nunca faziam, pois tinham medo até de atravessar rios rasos, quanto mais de braços de mar.

Mas,  logo os colonos também ficaram sitiados, sem ter com quem se comunicar por via terrestre. Os aimorés embora não atravessassem os braços de mar que cercam aquele arquipélago, para atacar os refugiados, deram a volta ao arquipélago e interromperam a trilha terrestre que servia de comunicação com a Capitania da Bahia.

Com a guerra Aimoré e seus permanentes ataques, até os índios Tupiniquins, aliados dos portugueses, fugiam para o sertão, em debandada, morrendo de medo daqueles selvagens, que, além de cruéis, eram imbatíveis quando enfrentados.

Um certo Fernão Guerreiro, escrevendo no final do século XVI sobre os mesmos Aimorés disse também que se tratava de gente barbaríssima, alheia à toda a humanidade, e onde o uso da razão parecia estar muito apagado. É a fera mais cruel que há em todo Brasil, asseverou! Nunca andam juntos, senão poucos, e, sem serem vistos, cercam a gente e a matam com ligeireza e, com ligeireza, voltam a se embrenhar no mato, como cabras silvestres, correndo muitas vezes sobre os pés e as mãos, com o arco e flecha às costas, nunca pelejando em campo descoberto, senão em assaltos repentinos, por detrás das moitas e das árvores, sem  que os homens possam vê-los, senão quando já estão sendo atingidos pelas flechados ou golpes de bordunas. Tem infestado toda a costa do mar, e por sua causa são abandonadas fazendas de 30, 40 e 50 mil cruzados, por se verem, os habitantes e donos, cada dia mais, em perigo de morte.

Segundo registros históricos, durante aqueles ataques às povoações das Capitanias de Ilhéus e Porto Seguro, os Aimorés mataram, pelo menos, 300 portugueses e três mil dos seus escravos indígenas e negros, estes últimos que já começavam a chegar.

Os Aimorés de fato só puderam ser contidos, no final do século XVII, quando os portugueses passaram a jogar roupas e objetos infestados por vírus de doenças infecto-contagiosas, como a varíola,a turberculose e outras, roupas e objetos aqueles que eram trazidos, com muito cuidado da Europa, para serem lançados nas matas em que viviam aquelas feras,  os piores inimigos do portugues invasor. As doenças dos brancos não sabiam os Aimorés como combater, nem resistir, e terminaram tombando, dizimados por elas!

Mas, já era tarde. A atividade de cultivo da cana e produção do açucar  para não trazia interesse economico para o invasor europeu.

O auge do ciclo econômico do açúcar durou aproximadamente um século, isto é, de 1550 até 1650. Já próximo ao final do ciclo, entre 1624 e 1630, os holandeses enviaram tropas para invadir as duas áreas mais importantes de produção de açúcar no Brasil: primeiro a Bahia (1624 a 1630); e, quando abandonaram a região, mudaram-se para a de Pernambuco (1630 a 1654), onde permaneceram por quase duas décadas e meia.

Como os holandeses já tinham o controle do refino e comercialização do açúcar na Europa, queriam também garantir a produção.

Mas, com a descoberta do açúcar de beterraba, que permitia que fosse produzido na própria Europa, conjugada ao cultivo do açúcar de cana nas ilhas caribenhas e antilhanas, muito mais próximos da Europa, o interesse comercial de se produzir açúcar em nossa região foi desaparecendo, vez que, com estes fatos novos, o açucar qui produzido passou a ter um custo comparativo bem mais elevado, em decorrência do transporte mais longo e, por isso mesmo mais caro.

No entanto, sob o aspecto sociológico, em relação às populações que foram surgindo dos que aqui ficaram, e o medo de ataques de navios piratas – que fez com que todas as cidades (sem exceção, desde Nazaré a Camamu) desta região fossem construídas no interior de rios navegáveis, ao invés de no litoral, como seria de se esperar – e o medo dos ataques Aimorés, foram inconscientemente incorporados comportalmentalmente aos povos descendentes – de degredados e aventureiros (com seus vícios e distúrbios de conduta), de tupiniquins (ingênuos e culturalmente avesso ao trabalho fisico para o homem, já que o consideravam desonroso e exclusivo da mulher) e de Aimorés (arredios, inacessíveis e vingativos) – os povos que foram surgindo e se sucedendo nesta baixo sul  foram, em expressiva maioria, se tornando xenófobos (aqueles que têm aversão às pessoas e coisas estrangeiras) e que desconfiam de todos e de tudo além do seu  sectário familiar.

O Aimoré, indio ou india, quando aprisionado, preferia morrer de fome e sede a ter que sequer receber o alimento daqueles que o aprisionaram. Se herança xenófoba há hoje np habitante da Costa do Dendê, deve ter sido incorporado à forma de pensar no inconsciente coletivo do forro eugênico do colonizador degredado nos coitos com as indias tupiniquins, já que o colonizador degredado era o de pior que havia em Portugal na época.

Sobre a questão da transmissão eugênica de caracteristicas na forma de agir e de pensar há dois pensamentos que se contrapoem antagonicamente. De um lado, os defensores do médico e cientista italiano Cesare Lombroso, que afirma a transmissão genetica de caracteristicas no caráter e no comportamento. Do outro lado, a teoria psico-analitica freudiana, que por sua vez tem um pé no estribo das teorias comportamentais descritas por Karl Marx,  de que o homem é apenas o fruto do meio e dos fatores exogenos ao seu derredor  recebidos em sua educação.

Esse contraponto de opiniões é um intrigante tema para pesquisa e elaboração de estudo  aprofundado sobre a maneira de pensar do que aqui ficou e floresceu!

Segundo o cientista social Gilberto Freire, mais proximo a maneira de pensar de Lombroso, em seu clássico Casa Grande e Senzala, que se a descendência brasileira nos primórddios da colonização não nos ficou pior, em face à expressiva  carga genética corrompida, que nos fora doada pelos primeiros ancestrais, foi exclusivamente graças à notável contribuição da raça negra africana, muito superior em eficiência econômica e eugênica. Uma vez aqui chegados, introduzidos cruelmente pelo colonizador português, amaciaram as índoles posteriores e transmitiram aos descedentes,  além das características egocêntricas que já tinham herdadas da etnia colonial portuguesa,  também as proprias do seu povo de alegria, de expansividade, de sociabilidade, de musicalidade e de loquacidade.

Graças a Deus que não nos faltou o sangue africano!

Bibliografia:

–   Casa-grande & Senzala, Gilberto Freyre, 39ª Edição, Editora Record.

–   Capitães do Brasil – A Saga dos Primeiros Colonizadores, Eduardo

     Bueno, Editora Objetiva;

–  História  Econômica  do  Brasil, Caio Prado Júnior, 37ª. Edição, Editora Brasiliense;

– Visão do Paraíso – Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda, Editora Brasiliense; e

–   Pequena Enciclopédia Melhoramentos – Edições Melhoramentos;

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *