RESUMO DA COLONIZAÇÃO BRASILEIRA EM RELAÇÃO À COSTA DO DENDÊ – 2ª. PARTE

FASE DA EXPLORAÇÃO DO OURO DE ALUVIÃO E A COLONIZAÇÃO DO SERTÃO

 A depressão econômica que o Brasil mergulhara com o fim e o fiasco do ciclo da cana de açúcar é interrompida pela descoberta do ouro de aluvião, em rios que estão localizados nos, hoje, Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Bahia (parte ocidental, ou oeste).

Dizem os estudiosos, em particular o notável pensador e professor de economia Celso Furtado, que se a produção e comercialização de açúcar no Brasil geraram recursos que possibilitaram a ocupação de um vasto trecho da costa e a defesa sistemática do país contra invasores estrangeiros, o ouro conduziu, sob governo dos portugueses, a colonização do extenso território interiorano, criando também a interdependência econômica entre suas partes.

Aqui na Bahia, a cidade de Rio das Contas, criada por Provisão Real em 1745, foi a primeira cidade planejada do Brasil. Até hoje a cidade preserva o  antigo traçado, apresentando praças e ruas amplas, igrejas barrocas, monumentos públicos e religiosos em pedra e o casario em adobe. Vale à pena ir conhecer!

Escravos alforriados que se instalaram na margem direita do Rio de Contas Pequeno, atual Rio Brumado, foram os primeiros habitantes da região de Rio de Contas. Em pouco tempo, formou-se o povoado denominado “Pouso dos Crioulos” (localizado no sul da Chapada Diamantina e dentro do Polígono das Secas).

No início do século XVIII, com a chegada de bandeirantes interessados em novas regiões de exploração do ouro, um novo arraial (hoje chamado de Mato Grosso) foi fundado, atraindo mais pessoas. Também naquela época chegaram os padres jesuítas à região.

Na segunda década do século XVIII, o Bandeirante Sebastião Pinheiro da Fonseca Raposo Tavares descobriu ouro no local, iniciando um ciclo que marcou a história da região, fazendo com que o povoado prosperasse rapidamente. Rico em ouro de aluvião, o município viveu na segunda metade do século XVIII uma época de grande prosperidade econômica. As tradicionais famílias importavam da Europa peças de uso pessoal e de decoração e, numa celebração à abundância, pó de ouro era lançado em pessoas fantasiadas de Imperadores e Rainhas nas procissões da Festa do Divino. Também são daquela época os casarões em estilo colonial, hoje tombados pelo patrimônio histórico.

Iniciaram-se, também, naquela época, as atividades suplementares de criação de gado e de culturas agrícolas. À proporção que novas levas de braço chegavam, para o garimpo, o arruado a margem do rio Itapicuru Mirim ia crescendo rapidamente, reunindo população inicial bastante densa e heterogênea.

A exploração aurífera prosseguia fora do controle oficial e em escala tão crescente que o governo português, para melhor garantir a arrecadação do seu dízimo, determinou que o Governador da Província (da Bahia) criasse duas casas de fundição, sendo uma em Jacobina e outra em Rio de Contas. O resultado foi surpreendente e auspicioso, arrecadando-se, na mina de Jacobina, em apenas dois anos, cerca de 3.841 libras (1.742 quilos) de ouro, não obstante a difícil fiscalização da atividade.

Toda aquela prosperidade começou a acabar já por volta de 1800 com a escassez do ouro, e agravou-se com a descoberta de diamantes na Chapada Diamantina, já na década de 1840. Grande parte da população de Rio de Contas transferiu-se para Mucugê em busca de novas riquezas (ao invés de ouro, pedras preciosas, agora!).

Voltando ao princípio do século XVII, a corrida de bandeirantes (paulistas) e portugueses às minas de ouro descobertas em terras do atual município de Jacobina foi a origem da corrente inicial da povoação da área.

A notícia de exploração de minérios fez fluir ao oeste baiano numerosos contingentes humanos, vindo de recantos longínquos, principalmente do atual Estado de São Paulo, sedentos em fazerem fortuna com o ouro fácil de aluvião. O Brasil era, desde os primórdios da colonização, a terra da aventura e os que vinham, ou tinham vindo, invariavelmente pretendiam fazer fortuna rápida, o que na Europa, ou mesmo no Oriente, no caso dos mascates, era muito difícil, praticamente impossível.

Se a colonização na região Centro Sul – principalmente no atual Estado de São Paulo, onde se localiza São Vicente (o mais antigo dos povoados brasileiros, fundado em 1532), no início foi precária, porque lá as condições para a produção açucareira não eram favoráveis, independentemente da questão de distância maior para os mercados europeus do que aqui (no Nordeste), toma grande vulto e velocidade no período do ouro, quando a população, ao longo de dois séculos, passa de apenas 100 mil habitantes para 3,5 milhões. Era de lá que partiam, para as aventurescas comitivas de exploração e povoamento, para Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e oeste da Bahia.

Euclydes da Cunha em seu clássico “Os Sertões” assevera: As gentes portuguesas não abordavam o litoral robustecidas pela força viva das migrações compactas… Vinham esparsas (as gentes que vinham), parceladas em pequenas levas de degredados ou colonos contrafeitos, sem o desempeno viril dos conquistadores… Para os que viviam em Portugal, o Brasil era a terra do exílio: vasto presídio com que se amedrontavam os heréticos e os relapsos, todos os passiveis do “morra per ello”.

Aliás, os forasteiros que chegaram aos litorais brasileiros na colonização (e depois entraram pelos sertões) eram, quase sempre, “homens de guerra, sem lares, afeitos à vida solta dos acampamentos, ou degredados e aventureiros corrompidos. Norteava-os a todos o aforismo o “ultra equinotialem non peccavi (não há pecado além da linha do equador)”, além do interesse de fazerem fortuna rápida para depois, quem sabe, retornar ao velho mundo.

Meio século antes, inicio do século XIX, as guerras napoleônicas na Europa, que obrigaram a mudança da sede da coroa portuguesa para o Brasil (1808), forçaram a valorização do algodão e do açúcar, trazendo um fio de esperança à economia brasileira.

Mas, as dificuldades do açúcar brasileiro (de cana) frente ao europeu de beterraba e ao de cana originária das colônias britânicas nas Antilhas e nas Bahamas, protegido pelo sistema de preferência (imposto pelos ingleses, já então senhores dos mares), aliado à competição do nosso algodão frente ao americano, que, por estar mais próximo da Europa, tinha custo de colocação menor, não nos dava trégua.  Aliás, esta história se repete até hoje com a soja, pois, quando os americanos a produzem, ficamos sem competitividade pelo alto custo do nosso transporte em relação ao deles (não só pela maior distância física como também pelas estradas, quase sempre em estado deplorável, e dos portos brasileiros com equipamentos antiquados e custos operacionais bem mais elevados, que encarecem muito o produto final exportável). No caso do milho, por exemplo, o custo de transporte rodoviário, das zonas agrícolas até os portos, chega a ser mais elevado do que o de produção!

Com a diminuição da produção do ouro, na metade do século XIX, o país, como um todo, mergulha outra vez em depressão econômica, quando a população já não tinha atividade econômica relevante, e era obrigada a se dedicar às atividades de subsistência e ao comercio.

A Costa do Dendê manteve-se estagnada, ao longo dos séculos. Até hoje, em Valença, a maior das cidades regionais, tem a sua atividade econômica principal pousada no comercio, com quase 70% da riqueza produzida. A indústria, infelizmente, só participa com pouco mais de 14% e a atividade agrícola com 9,13%, embora o município tenha extensa área geográfica – 1.190 quilometros quadrados. Para melhor compreensão, ver o quadro abaixo.

Produto Interno Bruto 2005 -Valença – BA

ITEM DESCRIÇÃO VALOR ANUAL %
1 Valor adicionado na Agropecuária – 2005 29,40 milhões de reais 9,13%
3 Valor adicionado na Indústria – 2005

 

46,31 milhões de reais 14,38%
3 Valor adicionado no Serviço – 2005

 

215,65 milhões de reais 66,98%
4 Impostos – 2005

 

30,62 milhões de reais 9,51%
PIB a Preço de mercado corrente – 2005
321,98 milhões de reais 100,00%

Fonte: IBGE – Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais.

Em todos os ciclos de crescimento posteriores ao de cultivo da cana de açúcar, a nossa região (Costa do Dendê) permaneceu alheia ao que acontecia e estagnada no tempo, como vimos acima. E lá se iam três séculos de colonização. Os que aqui ficaram, refiro-me à Costa do Dendê, se encolheram, com exceção dos que se lançaram na atividade comercial, em que alguns se sobressaíram e até fortuna construíram (e constroem, até hoje).

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