HISTÓRIA ECONÔMICA – Quilombos e Quilombolas na Costa do Dendê: Justiça Social ou Instrumento Politico de Cooptação Eleitoral!

caravela

A atual Costa do Dendê corresponde a trecho do litoral que pertencia à Capitania dos Ilhéus, que media 50 léguas (300 quilômetros) de litoral, começando na foz do rio Jaguaribe e indo até a barra do rio Poxim, nas proximidades da ilha de Comandatuba.           A capitania dos Ilhéus tinha como vizinhas a capitania da Bahia (que depois foi transformada em séde da coroa portuguesa no Brasil), ao norte, e a capitania do Porto Seguro, ao sul.capitania-dos-ilheus

A Capitania dos Ilhéus, por falta deinteresse empresarial para explorá-la, foi doada ao escrivão da Fazenda Real, Jorge Figueiredo Correia, que também era um dos homens mais ricos de Portugal da época, e curiosamente recebeu o foral de posse no dia 1º de abril (nos tempos atuais comemorado como o dia da mentira) de 1535.


Jorge Figueiredo Correia

Jorge de Figueiredo Correia, o donatário da Capitania dos Ilhéus, entretanto, jamais pensou em trocar o seu elevado cargo de Escrivão Mor da Corte lusitana pelos nossos mosquitos, pela abundância das carnes morenas das nossas índias, e pelas agruras e desconforto da nova terra. Embora disposto a investir na colonização da sua Capitania, vez que dinheiro não lhe faltava, manteve-se prudentemente, à distância, na Corte. Em seu lugar, enviou um seu sequaz, o espanhol (castelhano) Francisco Romero que, há anos, vivia em Lisboa, com fama de homem duro e valente e por ele foi contratado como seu lugar tenente.

Francisco Romero partiu de Lisboa, em 1535, em direção ao Brasil trazendo, às custas de Jorge Figueiredo Correia, três naus (navios de madeira com capacidade maior que as caravelas, que eram de pequeno porte) e duzentos e cinqüenta homens. Segundo os pesquisadores, deve ter sido gasto do bolso de Jorge Correia, o mínimo de 150 mil cruzados (moeda de ouro ou prata que valia quatrocentos reis). Para se ter uma ideia de grandeza, como o salário de um marinheiro era de dez cruzados (quatro contos de reis) por ano, o Escrivão Mor (donatário da Capitania) deve ter investido o suficiente para pagar o salário de 15 mil marujos durante um ano!Naus Portuguesas

A frota em que veio Francisco Romero, ao chegar ao Brasil, aportou na baía de Todos os Santos, provavelmente onde hoje está a cidade baixa de Salvador.. Depois de alguns dias de descanso, partiu para o sul para ocupar a Capitania que iria governar, em nome do donatário, fazendo a sua base inicial na Ilha de Tinharé. Isto é, exatamente no local que hoje conhecido como Morro de São Paulo.

Enquanto os colonos se dedicavam a desbastar uma clareira naquele local, para as primeiras construções, Francisco Romero enviou um destacamento para explorar o litoral mais ao sul da Capitania, que ía até a foz do rio Poxim, onde fica hoje a ilha de Comandatuba. Após algumas semanas, o grupo retornou com a notícia de que encontrara um local mais favorável do que onde estavam, (no Morro de São Paulo), para se fundar a sede da Capitania.Costa do Dendê e do CacauSegundo o historiador contemporâneo Eduardo Bueno, o lugar era estrategicamente perfeito. Ficava em uma península, abrigado por quatros ilhéus, onde o rio Cachoeira desaguava no mar, após dar voltas ou serpentear pelo manguezal. O lugar oferecia excelente ancoradouro, abrigado do vento sul por um promontório (ponta de terra elevada que se lança ao mar) que, pela margem direita do rio, avançava mar adentro.

Em homenagem ao patrão (Jorge de Figueiredo Correia) e em referência aos quatro ilhéus (rochedos no meio do mar)  que haviam no local, Francisco Romero denominou o local de Vila de São Jorge dos Ilhéus. Por isso é que até hoje a cidade se chama  São Jorge dos Ilhéus!   Só que eles, portugueses, não sabiam que ali, exatamente ali, estava o território base da terrível tribo indígena Aimoré, que maisadiante saberemos o quanto trouxe de desgraça aos primeiros colonizadores portugueses!

De início, tudo corria bem!Indios Aimorés 2
Utilizavam, os portugueses, a mão de obra tupiniquim, que, pacífica e cordata, nenhuma resistência oferecia à colonização e, às custas de presentes, forneciam a mão de obra que o colonizador precisava para as construções civis, plantios de cana, construção dos engenhos, derrubada de árvores e aprisionamento de animais silvestres. Um ano depois, Romero já enviava a Portugal uma nau cheiinha de pau-brasil!  A vila estava instalada, fortificada e até já contava com uma capela.

Engenho de Açucar e VilaComo as coisas iam bem, em 1537, o Escrivão Mor Jorge de Figueiredo Correia, buscando parceria nos empreendimentos de produção de açúcar distribuiu três sesmarias, sendo uma parceirizada com desembargador Mem da Sá (que depois se tornou Governador Geral do Brasil), outra com o banqueiro florentino Lucas Giraldes e a terceira com o Tesoureiro Mor da Corte, Fernão Álvares de Andrade, que, ao mesmo tempo  também era donatário da Capitania do Maranhão.

Indios Tupiniquins 1Colonos e índios (tupiniquins) mantiveram, no início, uma convivência pacífica em toda a Capitania dos Ilhéus. Duas vezes por ano, Jorge de Figueiredo Correia mandava para a sua Capitania milhares de anzóis, espelhos, facões machados e miçangas.

Francisco Romero, o seu administrador, intermediava o troca-troca entre os colonos e índios, o que garantia aos primeiros os mantimentos e braços fortes dos índios tupiniquins para o trabalho. No entanto, os terríveis índios Aimorés, nômades e arredios, mantinham-se à distância, na mata, sem querer nem aceitar nenhuma aproximação com os portugueses, que nem de leve supunham o quanto poderiam ser perigosos e vingativos.

Com o passar do tempo os índios tupiniquins, apesar de dóceis, passaram a ter mais objetos do que precisavam e começaram a exigir, pelos mantimentos e mão-de-obra no trabalho que forneciam aos brancos, mais e mais presentes, em troca. A caça também já começava a escassear nas redondezas das vilas, o que forçava os colonos a se embrenharem cada vez mais na mata em busca de animais e produtos comestíveis.

Surgia, então, a necessidade de uma mão de obra fixa nos engenhos de açúcar, que já estavam produzindo açucar e melaço! Os portugueses, esperta e ingenuamente, tiveram a infeliz idéia de aprisionar índios, com quem conviviam pacificamente há anos. Em pouco tempo, desencadeou-se guerras entre os dois grupos.

Com a necessidade cada vez maior de mão de obra permanente, a prática de aprisionamento de nativos tornou-se freqüente e os colonos, armados e sem saber do perigo que corriam em relação aos índios Aimorés, cada vez mais se aventuravam a penetrar no território deles.   Mas, a reação não demorou muito. Foi imediata e já no segundo semestre de 1546 os ataques indígenas, tanto aos europeus como mesmo a tupiniquins, tornaram-se constantes.

Quanto aos Aimorés, em pouco tempo, a ferocidade deles devastava as vilas das capitanias dos Ilhéus e do Porto Seguro, e para aquele tipo de adversidade o colonizador portugues não tinha remédio, nem sabia como lidar. Tinham eles, os colonos, que abandonar tudo e fugir se não quisessem morrer!

Indios Aimorés 1Em 1570, ano em que se supõe ter sido encerrado o ciclo da cana de açucar nas terras das Capitanias dos Ilhéus e do Porto Seguro, o senhor de engenho e historiador Gabriel Soares de Souza assim se expressa em seu noticioso sobre o Brasil: “Os oito engenhos que haviam na Capitania de Ilhéus já não fazem mais açúcar. Nem morador há que ouse plantar cana, porque em indo os escravos ou os homens ao campo não escapam da sanha Aimoré, que faz com que fuja toda a gente dos Ilhéus (Capitania) para a Bahia (Capitania), ficando a terra quase que totalmente despovoada. Ilhéus, que fora um vila muito abastada e rica, em que viviam até 500 famílias de colonos agora não conta com mais de cem.

Os índios Aimorés eram muito diferentes dos afáveis Tupiniquins, a quem os portugueses usavam e abusavam, principalmente as mulheres!

Primeiro, os Aimorés não aceitavam nenhum contato com os brancos, fossem eles senhor de engenho, colonos, degredados ou religiosos. Não tinha conversa nem presente que os cativassem. Além disso, em combate, eram terrivelmente cruéis! Os poucos aprisionados, prefiriam morrer a aceitar comida ou agua do colonizador, a quem julgava inimigos, ao invés de deuses como os Tupiniquins. Eram dotados de uma irascibilidade que ninguem supunha nem estava preparado a enfrentar.

Quando atacavam as vilas dos colonos, os Aimorés vinha acocorados, feito macacos, silenciosos e pintados de preto, para não serem percebidos, e os ataques eram de surpresa, como nas guerrilhas de hoje.

Em questão de poucos minutos, matavam a todos que encontrassem, fosse homem, mulher, criança, padre, índio ou índia tupiniquim. Não tinha perdão, pra ninguém!

Matava a todos com flechadas ou com golpes de pesados tacapes que cruelmente desferiam, sem nenhuma piedade, na cabeça das vítimas. Ainda retalhavam e carregavam a carne humana para a sua alimentação, quando se retiravam, após os sangrentos ataques.

Destruíam tudo na porretada e ainda ateavam fogo no que sobrasse,  naqueles ataques!

Em pouco tempo os portugueses que sobreviveram fugiram e abandonaram tudo, tanto na Capitania dos Ilhéus, onde estamos, como na vizinha ao sul, a do Porto Seguro, em direção a outras capitanias ou de volta a Europa ou ainda em direção a África.

Até os índios Tupiniquins também caíram em retirada e se embrenharam em direção aos sertões, morrendo de medo dos terríveis Aimorés.

Um verdadeiro flagelo, aqueles ancestrais Aimorés. Ficou tudo deserto, por aqui!

Segundo os antropólogos, na cultura indigena, até hoje, o exercício de atividades agricolas ou produtivas´é da exclusiva responsabilidade feminina e, de certa forma, considerada desonrosa para o homem. Ele, o indio homem, pode até exercê-la temporaria e expontaneamente, como o tupiniquim a fez, no primordio da colonização,  como troca a presentes, mas o homem indio, culturalmente  por não ser preparado para essas atividades,  logo se entedia e a larga pra lá. Já a mulher  india, embora fisicamente mais fraca que o homem,  é que era e é culturalmente preparada para o trabalho na agricultura e exercer, nas tribos, as tarefas domésticas.

Em 1570, o historiador, e senhor de engenho, Gabriel Soares de Souza assim se expressa em seu relato sobre o Brasil: “Os oito engenhos que existem na Capitania dos Ilhéus já não fazem mais açúcar. Nem morador há que ouse plantar cana, porque, em indo os homens (colonos) ou escravos (índios) ao campo, não escapam da sanha aimoré, que faz com que fuja toda a gente dos Ilhéus (Capitania) para a Bahia (Capitania), ficando a terra quase que despovoada”. Ilhéus que fora um vila muito abastada e rica, em que viviam até quinhentas famílias de colonos, agora não conta com mais de cem.

Ainda segundo Gabriel Soares de Souza, os índios Aimorés eram uma gente esquisita e agreste, inimiga de todo o gênero humano, inclusive dos índios de outras tribos, e pouco se sabia deles e sobre os seus costumes, vez que eram inacessíveis ao contacto de outras pessoas de fora, fossem brancos ou indios doutras tribos.  Eram altos e robustos, de pele clara e grossa, o que se atribui ao fato de só andarem pelo interior da selva, onde os raios solares não penetravam com tanta intensidade, além da pratica de auto açoites que faziam com cardo, para enrijecerem a pele. Possuíam o costume de depilar totalmente o corpo raspando-o com uma “navalha” de taquara.

O historiador jesuíta Fernão Cardim, por volta de 1580 escreve em seu “Tratado da Terra Gente do Brasil” que os índios Aimorés, pelo hábito de andarem pelos matos bravios, têm os couros (a pele) muito rijos (grossos), e, para conseguirem isto, se auto açoitam, desde meninos, com cardos (planta nativa em que o caule é coberto de pelos), para que acostumem pele à rigidez da mato bravo.  Não  têm  roças  fixas  e  vivem  de  rapina  e  pela  ponta  de  flecha, comendo até mandioca crua (que contém uma violenta substância tóxica, chamada ácido  cianídrico) sem lhes fazer mal,  e correm muito.

Aos  brancos,  quando  atacam,  vêm de assalto, usando  arcos  muito  grandes   e   trazendo  paus  muito  grossos (tacapes), para quebrar de uma só cacetada as cabeças dos oponentes. Quando vêm à peleja, disse Cardim, o fazem escondidos, pintados e embaixo de folhas. Mas, não ousam cruzar água, nem tampouco usar embarcações, pois não são dados a pesca. Toda a sua vivenda é a do mato!                Viviam permanentemente vagando pela floresta, não somente para coleta de alimentos, mas também pelo seu espírito nômade, sem casa, nem nenhum conforto, nem agasalhos. Dormiam no chão, pois não tinham conhecimento do uso da rede e, quando chovia, procuravam refúgio na copa verdejante das árvores. Além da caça, nutriam-se de frutos e vegetais silvestres, que existiam em abundância na imensa selva da floresta atlântica, e da pesca. Ao que se sabe, só temiam mesmo a água! Isto é, a água dos rios caudalosos e do mar.

Na guerra dos Aimorés não havia chefes, nem nunca procuravam lutar frente a frente. Pelejavam pelos lados, rastreando pela mata, agachados e de cócoras, armando emboscadas em pequenos grupos.

Quando caíam prisioneiros dos brancos recusavam-se a comer e a beber até que morressem de inanição. Do inimigo branco, nada aceitavam. Preferiam, honrosamente, a morte!

Logo no início dos cruéis ataques dos Aimorés, os colonos das Capitanias dos Ilhéus e do Porto Seguro, tentaram se refugiar nas ilhas de Boipeba e Tinharé, aqui na nossa Costa do Dendê, já que os Aimorés temiam aguas profundas e. para lá chegarem. teriam que navegar ou nadar, o que nunca faziam, pois tinham medo até de atravessar rios rasos, quanto mais de braços de mar.

Um certo Fernão Guerreiro, sobre os mesmos Aimorés, disse também que se tratava de gente barbaríssima, alheia à toda a humanidade, e onde o uso da razão parecia estar muito apagado. É a fera mais cruel que há em todo Brasil, asseverou! Nunca andam juntos, senão poucos, e, sem serem vistos, cercam a gente e a matam com ligeireza e, com ligeireza, voltam a se embrenhar no mato, como cabras silvestres, correndo muitas vezes sobre os pés e as mãos, com o arco e flecha às costas, nunca pelejando em campo descoberto, senão em assaltos repentinos, por detrás das moitas e das árvores, sem que os homens possam vê-los, senão quando já estão sendo atingidos pelas flechados ou golpes de bordunas. Tem infestado toda a costa do mar (na realidade as Capitanias dos Ilheus e do Porto Seguro), e por sua causa são abandonadas fazendas de 30, 40 e 50 mil cruzados, por se verem, os habitantes e donos, a cada dia mais, em perigo de morte.

Segundo registros históricos, durante aqueles ataques às povoações das Capitanias de Ilhéus e Porto Seguro, os Aimorés mataram, pelo menos, 300 portugueses e três mil dos seus escravos indígenas e negros, estes últimos que já começavam a chegar.

Os Aimorés de fato só puderam ser contidos, no final do século XVII, quando os portugueses passaram a jogar roupas e objetos infestados por vírus de doenças infecto-contagiosas, como a varíola,a tuberculose e outras, roupas e objetos aqueles que eram trazidos, com muito cuidado da Europa, para serem lançados nas matas em que viviam aquelas feras,  os piores inimigos do português invasor. As doenças dos brancos não sabiam os Aimorés como combater, nem resistir, e terminaram tombando, dizimados por elas!

Mas, já era tarde. A atividade de cultivo da cana e produção do açúcar  já não trazia interesse econômico para o invasor europeu, principalmente o comprador holandês que refinava o açúcar demerara e o distribuía em toda a Europa.

De uma maneira geral, o ciclo econômico do açúcar durou aproximadamente cem anos no Brasil, isto é, de 1550 até 1650. Já próximo ao final do ciclo, entre 1624 e 1630, os holandeses enviaram tropas para invadir as duas áreas mais importantes de produção de açúcar no Brasil: primeiro a Bahia (1624 a 1630) que era a sede da colonia, imaginando equivocadamente que nesta região, sendo a sede do governo geral da Colonia Portuguesa, era onde potencialmente poderia melhor se desenvolver a produção de açúcar, que era o seu principal objetivo; e, quando perceberam que haviam se enganado, abandonaram a região e mudaram-se para a de Pernambuco (1630 a 1654), onde os engenhos, sem a perseguição dos terríveis índios Aimorés, tiveram chance de melhor se desenvolver, onde permaneceram por quase duas décadas e meia e de fato só saíram de lá, porque em 1654 o cultivo da cana nas Antilhas e nas Bahamas, por ser mais próximo da Europa, era muito mais rentável.

A chamada invasão holandesa no Brasil (Bahia e Pernambuco) se deveu exclusivamente ao fato daquele povo, que já tinha o controle do refino e comercialização do açúcar na Europa, querer garantir a compra da produção, sem os intermediários portugueses ou espanhóis.

Açucar DemeraraMas, com a descoberta do açúcar de beterraba, que permitia que fosse produzido na própria Europa, conjugada ao cultivo do açúcar de cana nas ilhas caribenhas e antilhanas, bem mais próximas da Europa, o interesse comercial de se produzir açúcar em nossa região foi desaparecendo, vez que, com estes fatos novos, o açucar qui produzido passou a ter um custo comparativo bem mais elevado, em decorrência do transporte mais longo e, por isso mesmo mais caro. Aque ciclo foi historicamente encerrado entre 1650 e 1660.

O FIM PREMATURO DO CICLO DA CANA DE AÇÚCAR NA CAPITANIA DOS ILHEUS E DO PORTO SEGURO

No entanto, o ciclo da cana de açucar, com a consequente a expansão econômica das Capitanias dos Ilheus e de Porto Seguro, terminou bem mais cedo do que nas Capitanias de Pernambuco e São Vicente, simplesmente porque os ataques do indios Aimorés  inviabilizaram completamente a existência tanto de engenhos de açúcar como as fazendas fornecedoras de canas nas proximidades do território deles.

O português colonizador, desde o inicio do assentamento dos primeiros colonos em fazendas de produção de cana e construção dos oito engenhos (1535/1570), trouxe alguns poucos escravos africanos, vez que a mão de obra tupiniquim era muito farta.                 Mesmo quando ela começara a rarear, pois já se desinteressara dos presentes e quinquilharias que ganhavam como pagamento dos serviços voluntários que prestavam, e passaram a ser aprisionados e escravizados, o português durante alguns anos ainda insistiu naquele modelo, tanto é que a cada vez mais faziam incursões pelo interior, para capturar novos braços, até que se bateram com os Aimorés que viviam no interior das matas.

Só no segundo semestre de 1546 (dez anos após o inicio da colonização na Capitania dos Ilhéus) os ataques indígenas Aimorés tiveram inicio, em retaliação aos aprisionamentos realizados pelos portugueses e logo se propagaram, num crescente, que, em pouco tempo, permanecer nas fazendas e engenhos de açúcar na Capitania de Ilhéus, onde se localizava a nossa Costa do Dendê, tornou-se uma atividade extremamente perigosa.

Aqueles ataques mantiveram-se recorrentes, de forma que em 1570 (trinta e cinco anos após o inicio da colonização na nossa Capitania), segundo o historiador, e senhor de engenho, Gabriel Soares de Souza, os oito engenhos que existiam na capitania dos Ilhéus, nenhum mais produzia açúcar. Nem morador na vila de São Jorge dos Ilheus havia que ousasse plantar cana, porque, em indo os homens (colonos) ou escravos (índios e africanos) ao campo, não escapavam da sanha Aimoré, que faz com que fugisse toda a gente dos Ilhéus (Capitania) para a Bahia (Capitania), ficando a terra quase que despovoada”. Ilhéus que fora um vila muito abastada e rica, em que viviam até quinhentas famílias de colonos, naquela época já não contava com mais de cem famílias.

A região, com o prematuro fim do ciclo da cana de açucar (80 anos antes que nas Capitanias de Pernambuco e São Vicente) mergulha em profunda estagnação economica, que praticamente permanece até os nossos dias, e os proprietarios de terra que sobreviveram aos Aimorés, cuidaram de se mudar para outros locais, levando o que podiam, inclusive os escravos africanos, que haviam adquirido por compra.

Os pouquissimos que aqui permaneceram, para viver e sobreviver, passaram a se dedicar a atividades agricolas de sobrevivencia, criação de animais, extrativismo e comercio.

A depressão econômica que o Brasil, em suas regiões mais prósperas, mergulhara com o fim do ciclo da cana de açúcar é interrompida pela descoberta do ouro de aluvião, em rios que estão localizados nos, hoje, Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Bahia (parte ocidental, ou oeste).

FASE DA EXPLORAÇÃO DO OURO DE ALUVIÃO E A COLONIZAÇÃO DO SERTÃO

Celso FurtadoDizem os estudiosos, em particular o notável pensador e professor de economia Celso Furtado, que se a produção e comercialização de açúcar no Brasil geraram recursos que possibilitaram a ocupação de um vasto trecho da costa e a defesa sistemática do país contra invasores estrangeiros, o ouro conduziu, sob governo dos portugueses, a colonização do extenso território interiorano, criando também a interdependência econômica entre suas partes.

Findo o ciclo economico da cana de açucar, costuma-se atribuir o início da mineração à descoberta do ouro feita por Antônio Rodrigues Arzão, em 1693, embora a corrida do ouro começasse efetivamente com a descoberta das minas de Ouro Preto, em Minas Gerais, por Antônio Dias de Oliveira, em 1698.

Aqui na Bahia, escravos alforriados que se instalaram na margem direita do Rio de Contas Pequeno, atual Rio Brumado, foram os primeiros habitantes da região de Rio de Contas a se dedicar à captura do ouro de aluvião. Em pouco tempo, formou-se o povoado denominado “Pouso dos Crioulos” (localizado no sul da Chapada Diamantina e dentro do Polígono das Secas).

Mas, é importante esclarecer que, em todos os ciclos de crescimento posteriores ao de cultivo da cana de açúcar, a nossa região (Costa do Dendê) permaneceu alheia ao que acontecia e estagnada no tempo, como vimos acima. E lá se iam três séculos de colonização portuguesa. Os que aqui ficaram, refiro-me à Costa do Dendê, se encolheram, com exceção dos que se lançaram na atividade comercial, em que alguns se sobressaíram e até prosperidade alcançaram.

 

IMPROBABILIDADE DA EXISTÊNCIA DE QUILOMBOS NAS TERRAS QUE INTEGRARAM AS CAPITANIAS DOS ILHÉUS E DO PORTO SEGURO

      Pode-se asseverar que nas terras litorâneas que pertenceram às Capitanias dos Ilhéus e do Porto Seguro (o sistema de Capitanias Hereditárias vigorou até 1759, quando o Marques de Pombal o extinguiu) é tecnicamente improvável ter existido algum quilombo, pelos seguintes motivos:

1º) Os quilombos decorriam, no Brasil colonial e imperial, exclusivamente de ajuntamento de escravos africanos fugitivos dos seus supostos donos, revoltados com a vida que lhes fora cruelmente imposta, e se ajuntavam em locais bem escondidos e de dificil acesso, onde os seus supostos proprietários não pudessem lhes encontrar e aprisionar outra vez;

2º) Só houve prosperidade nas Capitanias dos Ilheus e do Porto Seguro, que justificasse a compra de escravos africanos, no período de 1536 a 1570, e o número escravos africanos foi muito pequeno, vez que havia disponibilidade de mão de obra indigena, pelo menos até o primeiro semestre de 1546.

3º) Só a partir do segundo semestre de 1546, com a dificuldade de se conseguir mão de obra tupiniquim, é que se configura a possibilidade de haver surgido a compra de escravos africanos, para utilização nos cultivos de cana e fabrico de açúcar. Mas, naquele mesmo ano, 1546, já se inicia os ataques Aimorés às fazendas e engenhos, de sorte que tanto o capitão detentor, assim como os três investidores em sesmarias, já passaram a ser desestimulados a fazer qualquer investimento onde o perigoso Aimoré pudesse atacar;

4º) Com o declinio da atividade econômica próspera, em 1570, a compra de escravos africanos para trabalhos braçais nas capitanias dos Ilhéus e do Porto Seguro,  já não se justificava, nem tampouco adviria o surgimento de fugitivos;

5º) O grande inimigo do escravo africano era o mesmo do portugues e até do indio tupiniquim, ou seja, era os ferozes Aimorés, cujos furtivos ataques tiveram inicio na segunda metade do ano de 1546, de forma que não se identifica um plausivel motivo para que escravos fugissem das vilas ou propriedades rurais em que viviam para se embrenhar no mato, onde poderiam mais facilmente ser encontrados e mortos pelos Aimorés;

6º) Com a abreviação e fechamento do ciclo da cana de açucar, no máximo em 1570, nas Capitanias dos Ilhéus e do Porto Seguro, os fazendeiros e senhores de engenho, que não morreram nos ataques Aimorés, abandonaram suas propriedades e mudaram-se para outras Capitanias, em que era possível cultivar a cana e produzir o açucar, levando consigo tudo o que era possível levar, inclusive os seus escravos;

7º) Os pouquíssimos brancos que permaneceram nestas duas Capitanias, após 1570, supostamente já nascidos no Brasil e filhos de cruzamento com índias, passaram a viver nos vilarejos que sobreviveram e a se dedicar ao extrativismo, culturas de sobrevivência e pequenos comércios, de forma que, é de se supor,  nenhum escravos possuíam;

8º) Durante cerca de 250 anos (de 1570 a 1820), isto é desde quando foi encerrado o cultivo de cana de açucar nas capitanias dos Ilheus e do Porto Seguro até o inicio dos cultivo de cacau no sul da Bahia (inicialmente feito por imigrantes suiços e alemães) não houve nenhum acontecimento econômico que justificasse ao colonizador desta região vir a adquirir novos escravos africanos,  já que havia farta disponibilidade de mão de obra descedente de cruzamento de brancos degredados com indias, para as tarefas domesticas e de agricultura de sobrevivência;

9º) De 1820 até 13 de maio de 1888, não há evidencias de que o fazendeiro que cultivava cacau fosse senhor de escravos, vez que muitos deles era afrodescendentes.

Coroneis do CacauFazendeiros de Cacau com Títulos da Guarda Nacional, tendo ao centro o legendário coronel Mario Pessoa (imortalizado na novela Gabriela Cravo e Canela, como o coronel Ramiro Bastos)..

A foto acima, dos coronéis do cacau no começo do seculo XX, denota a integração dos imigrantes europeus e seus descendentes com os afrodescendentes, sendo que alguns desses últimos se tornaram grandes produtores de cacau e senhores de terra.

Exportadores de Cacau na Praça de Ilhéus no inicio do século XX.

 IMPROBABILIDADE DE EXISTÊNCIA DE QUILOMBO NA REGIÃO DA GRACIOSA

Independente das razões apontadas para todo o território que pertencera às Capitanias dos Ilhéus e do Porto Seguro, a localidade chamada de Graciosa, às margens do rio Graciosa, fronteiriça dos municípios de Valença e Taperoá, tem caracteristicas que a improbabiliza de ser um remanescente quilombola, como a seguir:

1º) Historicamente sempre esteve às margens de estrada carroçável, que ligava as vilas do norte às do sul da Capitania, o que permitiria fácil acesso a quem estivesse no encalço de escravos fugitivos e, portanto, seria totalmente inadequado à constituição e permanência de um ajuntamento do tipo quilombo;

2º) Os afrodescendentes que existem aqui, pelo menos nos últimos 32 anos, quando aqui cheguei, na quase totalidade  são pequenos produtores rurais, e provenientes doutras regiões, que aqui chegaram em busca de trabalho, o que deve ter ocorrido ao longo dos novos  cultivos de cacau, cravo e borracha, e, com o dinheiro economizado, compraram pequenas glebas de terra;

3º) Mesmo sob o amparo da definição da Associação Brasileira de Antropologia, em 1989,  em que um agrupamento quilombola seria  toda comunidade negra rural, que agrupe descendentes de escravos, vivendo de cultura de subsistência e onde as manifestações culturais têm forte vínculo com o passado, pode-se dizer que essas relevâncias não são encontradas na comunidade da Graciosa, em que a grande parte e até os lideres da associação local se assemelham mais à descendência indígena mestiça e, não têm manifestações culturais fortemente associadas à matriz africana, vez que a grande maioria professa religiões católica e evangélica, sendo que os seguidores do candomblé são numericamente minoritários e inexpressivos na comunidade, e, provavelmente, sequer fazem parte do movimento reivindicatório de cidadania quilombola;

4º) Embora os demógrafos afirmem que atualmente o crescimento da população brasileira tornou-se cadente, é inegável que foi  vertiginoso durante o seculo XX e ainda o é, até agora, em números absolutos, principalmente junto aos mais carentes, tanto é que, em 2015, de um universo de 200 milhões de pessoas, só tivemos 27 milhões de declarantes de imposto de renda (13,5% do total da população).

Como comprovação a essa afirmação, temos que até o final do século XIX (1800) a população brasileira era estimada em 3,5 milhões;

– Cem anos depois (1900), a contagem do censo demográfico (iniciado em 1872) nos indicava o número de 17 milhões;

– No período contemporâneo, isto é, na copa do mundo de futebol de 1970, já éramos 90 milhões;

– No romper do ano 2000 para 2001 passávamos de 172 milhões; e

– Agora em 2015, já se estima sermos mais de 200 milhões;

5º) O crescimento da população da comunidade da Graciosa, que congrega varias etnias, também cresceu significativamente nas últimas décadas, a exemplo do que vem ocorrendo demograficamente em  varias regiões do país, havendo sim, no caso especifico, um pequeno agrupamento populacional, não superior a 150 pessoas, que se dedica à captura de mariscos e crustáceos nos manguezais, sendo que as pessoas moram em pequenas e rudimentares habitações à beira do manguezal, sendo todos, ou quase todos, associados a uma Colonia de Pescadores e Marisqueiros, em Taperoá, que lhes garante alguns beneficios sociais;

6º) Quanto ao fluxo de imigração de escravos africanos, calcula-se que durante 352 anos (de 1536 a 1888) tenham sido trazidos 3,5 milhões de indivíduos, o que daria uma média aritmética de 10 mil por ano.

No entanto, a historiografia demográfica afirma que só no período de 1800 a 1850 (primeira fase do ciclo do café no sul do Estado do Rio de Janeiro e norte do Estado de São Paulo), 1,5 milhão de escravos foram trazidos maciçamente, o que elevaria a média no período para 30 mil por ano. Mas, todos aqueles escravos teriam sido conduzidos para a região sudeste do país, onde havia um  surto desenvolvimentista do cultivo do café, ainda em expansão, que precisaria de braços para as tarefas laborais; e

7º) A Associação Comunitária da Graciosa, existe há menos de 10 anos e foi criada por um morador local,  que é pequeno proprietário de terras e policial militar (embora simples soldado, lotado no destacamento de Taperoá, é também graduado em pedagogia, pela UNEB) com objetivos eleitoreiros e reivindicatórios. Ele foi um dos que falaram em nome da instituição durante a audiência de 24 de agosto se posicionando contra um entendimento entre as partes litigantes, durante a audiência de conciliação promovida pelo juiz federal da Subseção de Ilhéus.

8ª) Em vista e facilidade oferecida, estribada no objetivo politico de atingir 2500 certificações em todo Brasil, conforme consta no próprio site da instituição, a Fundação Palmares acertificou os signatários da Associação Comunitária da Graciosa como comunidade quilombola, vez que exige apenas, para tanto, uma declaraçao de Autodefinição, sem nenhuma investigação histórico-antropológica, o que por sí só já representa uma excentricidade, para não dizer excrescência jurídica.

9º) Mas, sob o estado de direito, há que se fazer distinção em grupos de pessoas com características afrodescendentes que morem em uma comunidade – em meio ou não a outras pessoas que  não guardam nenhuma daquelas caracteristicas – agrupadas em uma associação comunitária, com um grupo verdadeiramente remanescente de um quilombo, descendentes de escravos africanos que fugiram dos seus pseudos proprietários para se bem esconderem e criarem uma comunidade econômico-social independente, que, daquela forma teria se mantido, até que a Lei Imperial n.º 3.353, mais conhecida como Lei Áurea, sancionada em 13 de maio de 1888, afastasse definitivamente o instituto da escravatura no Brasil.

  • – Orion Feitosa, economista e mestre em desenvolvimento ecônomico.

Bibliografia:

Capitães do Brasil – A Saga dos Primeiros Colonizadores – Coleção Terra Brasilis,

Bueno, Eduardo, Editora Objetiva 1999;

História Econômica  do  Brasil,

Prado Junior, Caio – 37ª. Edição, Editora Brasiliense;

Casa-grande & Senzala,

Freyre, Gilberto –  39ª Edição, Editora Record.

Visão do Paraíso – Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil,

Holanda, Sérgio Buarque de – Editora Brasiliense;

Pequena Enciclopédia Melhoramentos – Edições Melhoramentos.

Pesquisas no site www.ibge.gov.br

Pesquisas no site www.wikipedia.org.br

Pesquisas em outros sites.

ASPECTOS HISTÓRICOS E CULTURAIS DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA NA COSTA DO DENDÊ – 1a. PARTE


PARTE I

Dois anos após Cristovam Colombo desembarcar, em 12 de outubro de 1492, na ilha de Guanaani, nas Bahamas, espanhóis e portugueses se uniram, para firmar o Tratado de Tordesilhas, firmado, com a chancela papal, na vila espanhola do mesmo nome, localizada a província de Valladolid.PI 02Aquele tratado estabelecia um meridiano imaginário distante 370 léguas (2.220 quilômetros a oeste) das ilhas de Cabo Verde, nas costas da África. As terras a oeste daquela linha imaginária pertenceriam à Espanha, e as a leste seriam de Portugal.

O Meridiano de Tordesilhas passava pelo Brasil, nas atuais cidades de Belém(no Pará) e Laguna (em Santa Catarina).PI 03

Só que as outras coroas europeias que tinham também suas frotas e ficaram fora daquela partilha, não ficaram nem um pouco satisfeitas com a divisão do novo mundo em espanhol e português!

Os franceses, os ingleses e os holandeses, irresignados com o tal acordo, passaram provocativamente a também visitar as Américas, e extraírem madeiras, aprisionarem animais e índios para ser vendidos na Europa, como se fosse terra de ninguém, o que intranquilizava as duas cortes (espanhola e portuguesa) que, pela autoridade papal  foram aquinhoadas com o bom bocado que, pelo Tratado de Tordesilhas, deveria só lhes pertencer.

No caso português, a ocupação do território brasileiro era uma necessidade inadiável a cada dia que se passava, face aos prejuízos econômicos que as embarcações francesas, inglesas e holandesas estariam, supostamente, trazendo à corte lusitana, com a exploração paralela e desautorizada que faziam.  Mas, não havia suficiente dinheiro nos cofres da coroa portuguesa para financiar aquela intentona.

Para piorar a situação das finanças do reino português, em 1531 um terremoto atingira Lisboa, sede do reino português, e os prejuízos materiais foram terríveis. A reconstrução dos estragos consumia um horror de dinheiro e não havia, por isso, recursos para exploração econômica do Brasil às custas da coroa. Mas a colonização, ou a tomada de posse do território português, que cada vez mais risco corria de ser tomada por outras coroas europeias, era uma necessidade imperiosa que Portugal sabia que teria de fazer, o quanto antes!

 Os ingleses, os holandeses e os franceses de todas investidas feitas na América do Sul só conseguiram mesmo ficar com os quinhões das Guianas, que os portugueses nunca conseguiram lhes tomar de volta!

Em 1532, quarenta anos após a chegada de Colombo às Bahamas, foram fundadas as primeiras vilas no Brasil: São Vicente, no litoral paulista, e Piratininga, onde hoje está a cidade de São Paulo.  Aliás, não só no Brasil. Na verdade, os primeiros estabelecimentos europeus em toda a América do Sul!

Se de um lado São Vicente era um excelente porto estratégico marítimo-fluvial que permitia o rápido acesso ao interior brasileiro, do outro, a vila de Piratininga, nome dado pelos indígenas à região delimitada pelos rios Tietê, Tamanduateí e Anhangabaú, onde hoje está a cidade de São Paulo, estava estrategicamente protegida pela barreira da Serra do Mar. Tinha a vantagem de ficar às proximidades do leito do rio Tietê, um dos formadores da bacia do Prata e que também era porta de entrada para os sertões brasileiros.Costa do Dendê e do CacauA propósito, nesse mesmo tempo, a Costa do Dendê está entre as mais antigas áreas de ocupação e precursora do povoamento do Brasil. As primeiras notícias sobre estas terras férteis e de águas abundantes remontam à terceira década do século XVI, quando Martim Afonso de Souza, militar e administrador colonial português, a mando do rei D. João III, o Colonizador, comandou uma expedição (1530-1533) de cinco navios, com a tríplice missão de explorar a costa litorânea do Maranhão ao Rio da Prata e impedir, ou combater, o comércio de pau-brasil pelos franceses, fundando os primeiros núcleos lusitanos no Brasil quinhentista, em seqüência a São Vicente e Piratininga

Aliás, Martim Afonso de Sousa foi o primeiro europeu a pisar nas praias da Costa do Dendê. Com razoável certeza, pode-se afirmar que esse colonizador, nascido no ano da descoberta do Brasil, ancorou sua frota no Morro de São Paulo, que, para os que não sabem, é uma falésia de arenito, que os índios tupiniquins denominavam de ty-nhã-ré (o que se adianta na água).  Na verdade, trata-se de uma ilha litorânea, separada do continente por um braço de mar (Canal de Taperoá) que, aos olhos dos índios, parecia um pedaço de terra “que avançava na água”. A prefeitura de Cairu bem que poderia pesquisar o exato local do fundeio e onde puseram os pés, os primeiros portugueses, e fazer no local algo que pudesse ser valorizado turisticamente!

Enquanto isso, na corte portuguesa da época, as pressões filosófico-religiosas sobre o rei D.João III, rei de Portugal, forçaram o monarca em meados de junho de 1533, a constituir uma força-tarefa de navios para levar a Roma o bispo católico D. Martinho, para que, na qualidade de embaixador português junto à Santa Sé,  promovesse as tratativas para levar a Inquisição às terras portuguesas – um clamor do clero e da nobreza frente ao crescente poder dos comerciantes judeus, que cada vez mais punha em risco o casamento igreja-estado na corte lusitana!

No início de agosto, a frota portuguesa que conduzia o embaixador religioso em direção a Roma entra no porto espanhol de Málaga para se reabastecer. Quando já se preparava para seguir viagem, percebeu a entrada de uma nau francesa, de nome Peregrina que atracou ao lado, onde estava as naus que compunham a comitiva lusitana. Os portugueses logo se deram conta que a nau francesa estava vindo da América, e passaram a desconfiar que viesse do Brasil.

Ao saber que os franceses precisavam de víveres, o comandante português espertamente os ofereceu de graça, o que foi prontamente aceito pelo capitão francês. Depois, já navegando juntas em águas internacionais, como naus amigas, os portugueses usaram de estratagema para prender o navio e a tripulação francesa e se espantaram com o que acharam nos porões do navio. Havia 15 mil toras de pau-brasil, 3 mil peles de onças, 600 papagaios, 1800 quilos de algodão e várias quartas de óleos medicinais de plantas brasileiras!

A prisão da nau Peregrina foi a gota d’água para que o rei português D. João III e seus assessores concluíssem que os acordos anteriormente firmados estavam sendo desobedecidos e que não havia alternativa: os portugueses teriam que imediatamente colonizar o Brasil, se não quisesse perdê-lo para outra coroa.

ASPECTOS HISTÓRICOS E CULTURAIS DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA NA COSTA DO DENDÊ – 2a. PARTE

PARTE II

A prisão da nau francesa Peregrina por força-tarefa portuguesa, em águas mediterrâneas, nau aquela que transportava mercadorias vindas do Brasil, foi definitiva para se pensar em Lisboa da imediata necessidade de se colonizar o Brasil.

Aliás, aquele aprisionamento ocorreu praticamente de forma acidental, quando uma força-tarefa portuguesa que suspendera do Alentejo em direção ao Vaticano, para conduzir  o bispo católico D. Martinho, para que aquele religioso, na qualidade de embaixador português junto à Santa Sé,  promovesse as tratativas para levar a Inquisição às terras portuguesas, e foi definitivamente a gota d’água  que faltava para que o rei português D. João III e sua corte concluíssem que os acordos anteriormente firmados, em que a França se comprometia a respeitar o Tratado de Tordesilhas, não eram obedecidos e que não havia mais alternativas: os portugueses teriam que imediatamente colonizar o Brasil ou iriam perdê-lo para outras bandeiras.

Como não havia dinheiro nos cofres da coroa portuguesa, não demorou muito para que se decidisse que a colonização teria que ser feita com recursos da iniciativa privada. A fórmula encontrada foi a de se dividir o litoral em lotes com 50 leguas (300 km) de extensão de frente, sendo que para o interior a ordem era a de ocupar e explorar o que fosse possivel. Os concessionários foram denominados Capitães-Donatários e poderiam livremente explorar as riquezas que aparecessem, em nome do rei, com direito a transmitir aos seus herdeiros os direitos outorgados. Dois séculos antes, os portugueses tinham usado o mesmo sistema em território português continental, no Alentejo e no Algarves, após terem tomado aqueles territórios das mãos dos árabes, durante a reconquista cristã. E no século XV, ou seja, um século antes, a coroa portuguesa permitira a exploração, pela iniciativa privada, das ilhas de São Tomé, Príncipe e Fernando Pó, em frente à costa da Guiné, na África equatorial, nos moldes em que se tentava fazer no Brasil

Só que, ao contrário do que acontecera nos dois casos anteriores, em que as ocupações foram concedidas aos nobres da corte, naquele momento, no caso do Brasil, a nobreza lusitana não demonstrou nenhum interesse no projeto, de forma que os 15 lotes de 50 léguas (300 km) cada um de litoral formaram só 12 capitanias e tiveram que ser entregues a militares ligados à conquista da India e da África e altos funcionários da corte portuguesa.

Dos doze capitães-donatários, oito eram militares (conquistadores de territórios para a coroa portuguesa) e quatro altos funcionários da corte. Do total, apenas quatro já haviam estado no Brasil e, durante toda a donataria, só oito se interessam em ter contato pessoal com as terras tupiniquins. Isto é, quatro jamais puseram os pés por aqui! Tanto Jorge Figueiredo Correia como Lucas Giraldes, que o sucedeu, e receberam a capitania de Ilhéus, onde fica a atual Costa do Dendê, jamais vieram aqui!

Segundo o historiador Francisco Adolfo Vernhagen, a tarefa dos capitães-donatários era enorme e o rei D. João III só lhes dera mesmo as terras e o poder de explorá-las. Por causo disso, alguns daqueles donatários perderam as fortunas que tinham adquirido no reino ou na Índia, A respeito da epopeia daqueles desbravadores (para muitos, meros invasores das terras indigenas), Duarte Coelho Pereira, um dos donatários aquinhonhados, escreveu: “Somos obrigados a conquistar por polegadas a terra que Vossa Alteza, D. João III, nos fez mercê por léguas”.

Portanto, não é de todo estranho que das doze capitanias, apenas duas conseguiram florescer: Pernambuco e São Vicente (hoje Estado de São Paulo).

Há também sobre isto um fato curioso: com os donatários e colonos vieram, a partir de 1535, e em enorme quantidade, prisioneiros degredados, incursos em Portugal em gravíssimos crimes e que foram, por isto mesmo, condenados às penas de degredo, banimento e exílio. Portugal, ou melhor, a corte, para deles se livrar, espertamente os mandou para cá, durante o período de donataria, e aquela escória humana terminou por se transformar em nossos principais ancestrais, não sem antes terem dado um bocado de trabalho aos donos dos engenhos, colonos e familiares (em número muito menor) que aqui também vieram!

Enquanto os índios tupiniquins eram dóceis, afáveis, curiosos sobre os hábitos europeus e colaborativos na construção dos engenhos, cultivo da cana e feitura do açúcar  bruto e do melaço, desde que isto não lhe trouxesse desonra, os degredados, segundo o donatário Duarte Coelho, eram a peçonha que envenenava a nova terra, pois condenados as penas de expulsão de Portugal, por roubos e assassinatos, eram dados à mentira, à furtividade, e à traição. Mas como eram em grande número, em relação aos colonos, foram os grandes responsáveis pelo sangue português que se miscigenou com o das nossas nativas, gerando centenas de mamelucos, nossos ancestrais, que são a base da nossa etnia brasuca!

Regiões que economicamente estagnaram no tempo, como a Costa do Dendê, e que o sangue decorrente da miscigenaçao inicial com o degredado não foi refrescado por novos imigrantes de outra linhagem (isto é, que eugenicamente não tiham os mesmos problemas de caráter que os degredados portavam, segundo a teoria de Cesare Lombrosio) transmitiram aos seus descendentes graves e indesejados desvios de conduta, além da cultura da esperteza e da dissimulação.

Os mestiços dos portugueses com índias, com definido valor demogênico e social, formados pelos primeiros coitos, não oferece senão o interesse de terem servido de calço ou de forro para a grande sociedade híbrida que ia constituir-se, assevera Gilberto Freyre em Casa-grande & Senzala.

Segundo ainda o grande mestre de Apipucos (Gilberto Freyre) a carga genética decorrente da miscigenação com a matriz de degredados só não foi pior na formaçao da nossa raça, porque o sangue do negro africano (com caracteristicas dispares e bem melhores que o degredado portugues ou mesmo que o marinheiro frances, ingles ou holandes) refrescou uma parte da descendencia mameluca, transmitindo caracteristicas eugenicamente diferentes, para nossa sorte. No entanto os mamelucos da base histórica colonial, que não se beneficiaram com o melhoramento genetico do sangue africano, estão aí, até hoje, dando mostras das indesejadas caracteristicas de esperteza, oportunismo e deslealdade, mesmo entre si, não raro encontradas no dia a dia da Costa do Dendê!

A nossa Costa do Dendê, entre a Capitania da Bahia, ao norte, e a Capitania de Porto Seguro, ao sul, onde hoje vivemos estava incrustada na donataria ou Capitania de Ilhéus, que medindo 50 léguas (300 quilômetros) no litoral, começava na foz do rio Jaguaribe (aqui bem pertinho) e ia até a barra do rio Poxim, nas proximidades da ilha de Comandatuba, onde hoje há um portentoso empreendimento turistico-hoteleiro, que tem o mesmo nome. Aliás, aqueles marcos históricos bem que poderiam  ser mais valorizados turisticamente, se preocupação com o turismo houvesse mesmo por aqui!.

 A Capitania de Ilhéus foi concedida a Jorge Figueiredo Correia, escrivão da Fazenda Real e  um dos homens mais ricos de Portugal da época, sendo que o foral de sua capitania lhe foi outorgada no dia 1º de abril (coincidentemente, hoje tido como o dia da mentira!) de 1535.

Segundo Gilberto Freyre, o ambiente em que começou a vida brasileira foi de intoxicação sexual. O europeu saltava na terra tupiniquim escorregando em índia nua. Os padres precisavam ter cuidado redobrado, senão atolavam o pé em carne morena. A tentação dos tropicos era demais. Muitos foram os clérigos que se deixaram contaminar pela devassidão,  já que segundo a voz corrente, não havia pecado no lado de baixo do Equador. Era o deleite carnal no paraíso!

O padre José de Anchieta, sobre isto, assim se refere: “Las mujeres andan desnudas y no saben negar a ninguno mas aun ellas mismas acometen y importunan los hombres hallandose com ellos em las redes, porque tienen por honra dormir com los Xianos.”

As mulheres índias, nos relatam Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda,  eram as primeiras a se entregarem aos brancos. As mais ardentes íam logo se esfregar nas pernas brancas daqueles homens diferentes (do que conheciam até então), já que elas, em sua ingenuidade e em maravilhosa permanente nudez, consideravam os europeus como deuses e se entrelaçarem com eles! Era para elas uma espécie de ato de honra! Mas, davam-se também ao europeu por um pente ou um caco de espelho.

Mas, o amor, diz o mestre Freyre, era só físico; com gosto só de carne, dele resultando filhos que os pais cristãos pouco se importaram de educar ou de criar à moda européia ou à sombra da igreja. Meninos e meninas cresceram à toa, pelo mato; alguns tão ruivos e de pele tão clara, que descobrindo-os mais tarde a eles e a seus filhos entre o gentio (indios pagãos, não cristãos e não civilizado) os colonos facilmente os identificavam como descendentes de normandos e bretões, ao invés de indios puros ou mestiço portugues, geralmente de sangue mouro, que lá ficaram durante sete séculos.

Não só os portugueses, mas também os franceses e de outras nacionalidades que aqui vinham, deram-se na nova terra ao luxo que na Europa só os nobres e burgueses ricos era possível ter: o de se cercarem de muitas mulheres.

Se da numerosa progênie mestiça, muitos foram absorvidos pelas populações tupiniquins, outros conservaram-se numa espécie de meio-termo entre a vida selvagem e a dos traficantes e flibusteiros, que aqui vinham em desobediência ao Tordesilhas.

ASPECTOS HISTÓRICOS E CULTURAIS DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA NA COSTA DO DENDÊ – 3a. PARTE

PARTE III

A nossa Costa do Dendê corresponde a trecho do litoral que pertencia à Capitania dos Ilhéus, que media 50 léguas (300 quilômetros) de litoral, começando na foz do rio Jaguaribe e indo até a barra do rio Poxim, nas proximidades da ilha de Comandatuba. A capitania de Ilhéus tinha como vizinhas a capitania da Bahia, ao norte, e a capitania de Porto Seguro, ao sul.

A Capitania dos Ilhéus, por falta de interesse empresarial para explorá-la, foi doada ao escrivão da Fazenda Real, Jorge Figueiredo Correia, que também era um dos homens mais ricos de Portugal da época, e curiosamente recebeu o foral de posse no dia 1º de abril (nos tempos atuais comemorado como o dia da mentira) de 1535.

Jorge de Figueiredo Correia, o donatário da Capitania de São Jorge dos Ilheus, entretanto, jamais pensou em trocar o seu elevado cargo de Escrivão Mor da Corte Lusitana pelos nossos mosquitos, pela abundância das carnes morenas das nossas índias, e pelas agruras e desconforto da nova terra. Embora disposto a investir na colonização da sua Capitania, vez que dinheiro não lhe faltava, manteve-se prudentemente, à distância, na Corte. Em seu lugar, enviou um seu sequaz, o espanhol (castelhano) Francisco Romero que, há anos, vivia em Lisboa, com fama de homem duro e valente e por ele foi contratado como seu lugar tenente.

Segundo Pero Borges, Ouvidor-Geral do Brasil naquela época, Francisco Romero era um bom homem para o combate, mas não para o mando, porque era ignorante e fazia aos homens (colonos) o que não devia, pois era autoritário. Ainda segundo o Ouvidor-Geral, Romero era um mal administrador, embora “acordado e experimentado para cousas de guerra”. E guerra foi o que não lhe faltou em nossa região, como veremos adiante!

Francisco Romero partiu de Lisboa, em 1535, em direção ao Brasil trazendo, às custas de Jorge Figueiredo Correia, três naus (navios de madeira com capacidade maior que as caravelas, que eram de pequeno porte) e duzentos e cinqüenta homens. Segundo os pesquisadores, deve ter sido gasto do bolso de Jorge Correia, o mínimo de 150 mil cruzados (moeda de ouro ou prata que valia quatrocentos reis). Para se ter uma ideia de grandeza, como o salário de um marinheiro era de dez cruzados (quatro contos de reis) por ano, o Escrivão Mor (donatário da Capitania) deve ter investido o suficiente para pagar o salário de 15 mil marujos durante um ano!

A frota em que veio Francisco Romero, ao chegar ao Brasil, aportou na baía de Todos os Santos, provavelmente onde hoje está a cidade baixa de Salvador.. Depois de alguns dias de descanso, partiu para o sul para ocupar a Capitania que iria governar, em nome do donatário, fazendo a sua base inicial na Ilha de Tinharé. Isto é, exatamente no local que hoje conhecido como Morro de São Paulo.

Enquanto os colonos se dedicavam a desbastar uma clareira naquele local, para as primeiras construções, Francisco Romero enviou um destacamento para explorar o litoral mais ao sul da Capitania, que ía até a foz do rio Poxim, onde fica hoje a ilha de Comandatuba. Após algumas semanas, o grupo retornou com a notícia de que encontrara um local mais favorável do que onde estavam, (no Morro de São Paulo), para se fundar a sede da Capitania.

Segundo o historiador contemporâneo Eduardo Bueno, o lugar era estrategicamente perfeito. Ficava em uma península, abrigado por quatros ilhéus, onde o rio Cachoeira desaguava no mar, após dar voltas ou serpentear pelo manguezal. O lugar oferecia excelente ancoradouro, abrigado do vento sul por um promontório (ponta de terra elevada que se lança ao mar) que, pela margem direita do rio, avançava mar adentro.

Em homenagem ao patrão (Jorge de Figueiredo Correia) e em referência aos quatro ilhéus (rochedos no meio do mar)  que haviam no local, Francisco Romero denominou o local de Vila de São Jorge dos Ilhéus. Por isso é que até hoje a cidade se chama  São Jorge dos Ilhéus!   Só que eles, portugueses, não sabiam que ali, exatamente ali, estava o território base da terrível tribo indígena Aimoré, que mais adiante saberemos o quanto trouxe de desgraça aos primeiros colonizadores portugueses!

De início, tudo corria bem!. Utilizavam, os portugueses, a mão de obra tupiniquim, que, pacífica e cordata, nenhuma resistência oferecia à colonização e, às custas de presentes, forneciam a mão de obra que o colonizador precisava para as construções civis, plantios de cana, construção dos engenhos, derrubada de árvores e aprisionamento de animais silvestres. Um ano depois, Romero já enviava a Portugal uma nau cheiinha de pau-brasil!  A vila estava instalada, fortificada e até já contava com uma capela.

Como as coisas iam bem, em 1537, o Escrivão Mor Jorge de Figueiredo Correia, buscando parceria nos empreendimentos de produção de açúcar distribuiu três sesmarias, sendo uma parceirizada com desembargador Mem da Sá (que depois se tornou Governador Geral do Brasil), outra com o banqueiro florentino Lucas Giraldes e a terceira com o Tesoureiro Mor da Corte, Fernão Álvares de Andrade, que, ao mesmo tempo  também era donatário da Capitania do Maranhão.

Colonos e índios (tupiniquins) mantiveram, no início, uma convivência pacífica em toda a Capitania de São Jorge dos Ilhéus. Duas vezes por ano, Jorge de Figueiredo Correia mandava para a sua Capitania milhares de anzóis, espelhos, facões machados e miçangas.

Francisco Romero, o seu administrador, intermediava o troca-troca entre os colonos e índios, o que garantia aos primeiros os mantimentos e braços fortes dos índios tupiniquins para o trabalho. No entanto, os terríveis índios Aimorés, nômades e arredios, mantinham-se à distância, na mata, sem querer nem aceitar nenhuma aproximação com os portugueses, que nem de leve supunham o quanto poderiam ser perigosos e vingativos.

Francisco Romero, além de não ser português, também era muito rude no trato com os colonos subordinados e tratava-os discricionariamente. Mas, não demorou que os colonos resolvessem se vingar dele!

Certo dia, ao entrar na capela, cometeu a insensatez de, em voz alta, dizer que detestava o crucifixo do altar, em face do mesmo ter sido trazido de Portugal por um seu desafeto. Foi o suficiente para que se criasse a maior confusão, em torno do fato.

Acusado de blasfêmia e heresia, fosse preso, acorrentado pelos colonos e mandado para Portugal para ser julgado pela Inquisição, recém instalada em Lisboal. Ao desembarcar na Corte, graças à intercessão, prestígio e força do seu patrão, Jorge Figueiredo Correia, em pouco tempo foi solto e mandado de volta à Capitania de Ilhéus. Obvio que foi à forra e se vingou dos que tinham ousado lhe aprisionar.

Com o passar do tempo os índios tupiniquins, apesar de dóceis, passaram a ter mais objetos do que precisavam e começaram a exigir, pelos mantimentos e mão-de-obra no trabalho que forneciam aos brancos, mais e mais presentes, em troca. A caça também já começava a escassear nas redondezas das vilas, o que forçava os colonos a se embrenharem cada vez mais na mata em busca de animais e produtos comestíveis. Surgia, então, a necessidade de uma mão de obra fixa nos engenhos de açúcar, que já estavam produzindo açúcar e melaço! Os portugueses, esperta e ingenuamente, tiveram a infeliz idéia de aprisionar índios, com quem conviviam pacificamente há anos. Em pouco tempo, desencadeou-se guerras entre os dois grupos.

Com a necessidade cada vez maior de mão de obra permanente, a prática de aprisionamento de nativos tornou-se freqüente e os colonos, armados e sem saber do perigo que corriam em relação aos índios Aimorés, cada vez mais se aventuravam a penetrar no território deles.   Mas, a reação não demorou muito. Foi imediata e já no segundo semestre de 1546 os ataques indígenas, tanto aos europeus como mesmo a tupiniquins, tornaram-se constantes.

Quanto aos Aimorés, em pouco tempo, a ferocidade deles devastava as vilas das capitanias de Ilhéus e de Porto Seguro, e para aquele tipo de adversidade o colonizador português não tinha remédio, nem sabiam como lidar. Tinham eles, os colonos, que abandonar tudo e fugir se não quisessem morrer!

Em 1570 o senhor de engenho e historiador Gabriel Soares de Souza assim se expressa em seu noticioso sobre o Brasil: “Os oito engenhos que haviam na Capitania de Ilhéus já não fazem mais açúcar. Nem morador há que ouse plantar cana, porque em indo os escravos ou os homens ao campo não escapam da sanha Aimoré, que faz com que fuja toda a gente dos Ilhéus (Capitania) para a Bahia (Capitania), ficando a terra quase que totalmente despovoada. Ilhéus, que fora um vila muito abastada e rica, em que viviam até 500 famílias de colonos agora não conta com mais de cem.

Os índios Aimorés eram muito diferentes dos afáveis Tupiniquins, a quem os portugueses usavam e abusavam, principalmente as mulheres! Primeiro, os Aimorés não aceitavam nenhum contacto com os brancos, fossem eles senhor de engenho, colonos degredados ou religiosos. Não tinha conversa nem presente que os cativassem. Além disso, em combate, eram terrivelmente cruéis! Os poucos aprisionados, preferiam morrer a aceitar comida ou água do colonizador, a quem julgava inimigos, ao invés de deuses como os Tupiniquins. Eram dotados de uma irascibilidade que ninguém supunha nem estava preparado a enfrentar.

Quando atacavam as vilas dos colonos, os Aimorés vinha acocorados,  feito macacos, silenciosos e pintados de preto, para não serem percebidos, e os ataques eram de surpresa, como nas guerrilhas de hoje.

Em questão de poucos minutos, matavam a todos que encontrassem, fosse homem, mulher, criança, padre, índio ou índia tupiniquim. Não tinha perdão, pra ninguém!

Matava a todos com flechadas ou com golpes de pesados tacapes que cruelmente desferiam, sem nenhuma piedade, na cabeça das vítimas. Ainda retalhavam e carregavam a carne humana para a sua alimentação, quando se retiravam, após os sangrentos ataques.

Destruíam tudo que encontrassem pela frente naqueles ataques!

Em pouco tempo os portugueses que sobreviveram fugiram e abandonaram tudo, tanto na Capitania dos Ilhéus, onde estamos, como na vizinha ao sul, a de Porto Seguro, em direção a outras capitanias ou de volta a Europa ou ainda em direção a África.

Até os índios Tupiniquins também caíram em retirada e se embrenharam em direção aos sertões, morrendo de medo dos terríveis Aimorés.

Um verdadeiro flagelo, aqueles ancestrais Aimorés. Ficou tudo deserto, por aqui!

Continua na próxima edição

Bibliografia:

–  Casa-grande & Senzala, Gilberto Freyre, Editora Record.

– Capitães do Brasil – A Saga dos Primeiros Colonizadores, Eduardo Bueno, Editora Objetiva;

–  História Econômica do Brasil, Caio Prado Júnior, Editora Brasiliense;

–  Visão do Paraíso – Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda, Editora Brasiliense.

ASPECTOS HISTÓRICOS E CULTURAIS DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA NA COSTA DO DENDÊ – 4a. PARTE

PARTE IV

Com o passar do tempo, a colonização inicial da Costa do Dendê cada vez mais dependia de mão de obra permanente, vez que a mão de obra indígena tinha sempre um caráter temporário e voluntário, dada em troca aos presentes que recebia. E os índios tupiniquins já não se dispunham a trabalhar voluntariamente em troca das ferramentas e quinquilharias que os portugueses lhe davam pelos braços e alimentos que forneciam.

Segundo os antropólogos, na cultura indígena, até hoje, o exercício de atividades agrícolas ou produtivas´é da exclusiva responsabilidade feminina e, de certa forma, considerada desonrosa para o homem. Ele, o índio homem, pode até exercê-la temporária e espontaneamente, como o tupiniquim a fez, no primórdio da colonização,  por  troca aos presentes que recebia, mas logo se entediava e o largava. Já a mulher  índia, embora fisicamente mais fraca que o homem,  é que era culturalmente preparada para o trabalho na agricultura e exercer, nas tribos, as tarefas domésticas.

 A prática de aprisionamento de nativos tornou-se, então, frequente e, após dez anos de colonização, o português colonizador, sem saber do perigo que corria em relação aos índios Aimorés, cada vez mais se aventurava a penetrar no território deles, que correspondia a uma extensão de 100 léguas de costa (600 quilometros) e mato adentro o que quisessem, exatamente onde estavam as Capitanias dos Ilhéus e Porto Seguro.

No segundo semestre de 1546 os ataques indígenas Aimorés tiveram inicio, em retaliação aos aprisionamentos realizados pelos portugueses e logo se propagaram, num crescente, que, em pouco tempo, permanecer nas fazendas e engenhos de açúcar na Capitania de Ilhéus, onde se localizava a nossa Costa do Dendê, tornou-se uma atividade extremamente perigosa.

Em 1550, morre em Portugal Jorge de Figueiredo Correia, o donatário da nossa Capitania dos Ilhéus, e o seu filho herdeiro vende os direitos ao banqueiro italiano Lucas Giraldes, que vivia em Portugal e já era seu parceiro em investimentos em sesmarias de engenhos de açúcar.  Francisco Romero, o homem forte de Jorge Figueiredo, é então substituído pelo feitor Tomaso Alegre, um outro italiano contratado por Giraldes, que mantinha com o patrão uma ativa correspondência.  Há relatos de que, em 1959, Giraldes, já cansado de receber  correspondências recheada das dificuldades, envia uma carta a Tomaso Alegre em que lhe diz: Tomaso, queres que eu te diga: manda o açúcar e fica com as palavras.

O historiador jesuíta Fernão Cardim, por volta de 1580 escreve em seu “Tratado da Terra Gente do Brasil” que os índios Aimorés pelo hábito de andarem pelos matos bravios têm os couros (a pele) muito rijos (grossos), e, para conseguirem isto, se auto açoitam, desde meninos, com cardos (planta nativa em que o caule é coberto de pelos), para que acostumem pele à rigidez da mato bravo.  Não  têm  roças  fixas  e  vivem  de  rapina  e  pela  ponta  de  flecha, comendo até mandioca crua (que contém uma violenta substância tóxica, chamada ácido  cianídrico) sem lhes fazer mal,  e correm muito. Aos  brancos,  quando  atacam,  vêm de assalto, usando  arcos  muito  grandes   e   trazendo  paus  muito  grossos (tacapes), para quebrar de uma só cacetada as cabeças dos oponentes. Quando vêm à peleja, disse Cardim, o fazem escondidos pintados e embaixo de folhas. Mas, não ousam cruzar água, nem tampouco usar embarcações, pois não são dados a pesca. Toda a sua vivenda é a do mato!

Dez anos antes, em 1570, o historiador, e senhor de engenho, Gabriel Soares de Souza assim se expressa em seu relato sobre o Brasil: “Os oito engenhos que existem na capitania dos Ilhéus já não fazem mais açúcar. Nem morador há que ouse plantar cana, porque em indo os homens(colonos) ou escravos (índios) ao campo não escapam da sanha aimoré, que faz com que fuja toda a gente dos Ilhéus (Capitania) para a Bahia (Capitania), ficando a terra quase que despovoada”. Ilhéus que fora um vila muito abastada e rica, em que viviam até quinhentas famílias de colonos, agora não conta com mais de cem.

Ainda segundo Gabriel Soares de Souza, os índios Aimorés eram uma gente esquisita e agreste, inimiga de todo o gênero humano, inclusive dos índios de outras tribos, e pouco se sabia deles e sobre os seus costumes, vez que eram inacessíveis ao contacto de outras pessoas de fora, fossem brancos ou indios doutras tribos.  Eram altos e robustos, de pele clara e grossa, o que se atribui ao fato de só andarem pelo interior da selva, onde os raios solares não penetravam com tanta intensidade, além da pratica de auto açoites que faziam com cardo, para enrijecerem a pele. Possuíam o costume de depilar totalmente o corpo raspando-o com uma “navalha” de taquara.

Viviam permanentemente vagando pela floresta, não somente para coleta de alimentos, mas também pelo seu espírito nômade, sem casa, nem nenhum conforto, nem agasalhos. Dormiam no chão, pois não tinham conhecimento do uso da rede e, quando chovia, procuravam refúgio na copa verdejante das árvores. Além da caça, nutriam-se de frutos e vegetais silvestres, que existiam em abundância na imensa selva da floresta atlântica, e da pesca. Ao que se sabe, só temiam mesmo a água! Isto é, a água dos rios caudalosos e do mar.

         Na guerra dos Aimorés não havia chefes, nem nunca procuravam lutar frente a frente. Pelejavam pelos lados, rastreando pela mata, agachados e de cócoras, armando emboscadas em pequenos grupos.

Quando caíam prisioneiros dos brancos recusavam-se a comer e a beber até que morressem de inanição. Do inimigo branco, nada aceitavam. Preferiam, honrosamente, a morte!

Logo no início dos cruéis ataques dos Aimorés, os colonos das Capitanias dos Ilhéus e Porto Seguro, tentaram se refugiar nas ilhas de Boipeba e Tinharé, aqui na nossa Costa do Dendê, já que os Aimorés temiam aguas profundas e para lá chegarem teriam que navegar ou nadar, o que nunca faziam, pois tinham medo até de atravessar rios rasos, quanto mais de braços de mar.

Mas,  logo os colonos também ficaram sitiados, sem ter com quem se comunicar por via terrestre. Os aimorés embora não atravessassem os braços de mar que cercam aquele arquipélago, para atacar os refugiados, deram a volta ao arquipélago e interromperam a trilha terrestre que servia de comunicação com a Capitania da Bahia.

Com a guerra Aimoré e seus permanentes ataques, até os índios Tupiniquins, aliados dos portugueses, fugiam para o sertão, em debandada, morrendo de medo daqueles selvagens, que, além de cruéis, eram imbatíveis quando enfrentados.

Um certo Fernão Guerreiro, escrevendo no final do século XVI sobre os mesmos Aimorés disse também que se tratava de gente barbaríssima, alheia à toda a humanidade, e onde o uso da razão parecia estar muito apagado. É a fera mais cruel que há em todo Brasil, asseverou! Nunca andam juntos, senão poucos, e, sem serem vistos, cercam a gente e a matam com ligeireza e, com ligeireza, voltam a se embrenhar no mato, como cabras silvestres, correndo muitas vezes sobre os pés e as mãos, com o arco e flecha às costas, nunca pelejando em campo descoberto, senão em assaltos repentinos, por detrás das moitas e das árvores, sem  que os homens possam vê-los, senão quando já estão sendo atingidos pelas flechados ou golpes de bordunas. Tem infestado toda a costa do mar, e por sua causa são abandonadas fazendas de 30, 40 e 50 mil cruzados, por se verem, os habitantes e donos, cada dia mais, em perigo de morte.

Segundo registros históricos, durante aqueles ataques às povoações das Capitanias de Ilhéus e Porto Seguro, os Aimorés mataram, pelo menos, 300 portugueses e três mil dos seus escravos indígenas e negros, estes últimos que já começavam a chegar.

Os Aimorés de fato só puderam ser contidos, no final do século XVII, quando os portugueses passaram a jogar roupas e objetos infestados por vírus de doenças infecto-contagiosas, como a varíola,a turberculose e outras, roupas e objetos aqueles que eram trazidos, com muito cuidado da Europa, para serem lançados nas matas em que viviam aquelas feras,  os piores inimigos do portugues invasor. As doenças dos brancos não sabiam os Aimorés como combater, nem resistir, e terminaram tombando, dizimados por elas!

Mas, já era tarde. A atividade de cultivo da cana e produção do açucar  para não trazia interesse economico para o invasor europeu.

O auge do ciclo econômico do açúcar durou aproximadamente um século, isto é, de 1550 até 1650. Já próximo ao final do ciclo, entre 1624 e 1630, os holandeses enviaram tropas para invadir as duas áreas mais importantes de produção de açúcar no Brasil: primeiro a Bahia (1624 a 1630); e, quando abandonaram a região, mudaram-se para a de Pernambuco (1630 a 1654), onde permaneceram por quase duas décadas e meia.

Como os holandeses já tinham o controle do refino e comercialização do açúcar na Europa, queriam também garantir a produção.

Mas, com a descoberta do açúcar de beterraba, que permitia que fosse produzido na própria Europa, conjugada ao cultivo do açúcar de cana nas ilhas caribenhas e antilhanas, muito mais próximos da Europa, o interesse comercial de se produzir açúcar em nossa região foi desaparecendo, vez que, com estes fatos novos, o açucar qui produzido passou a ter um custo comparativo bem mais elevado, em decorrência do transporte mais longo e, por isso mesmo mais caro.

No entanto, sob o aspecto sociológico, em relação às populações que foram surgindo dos que aqui ficaram, e o medo de ataques de navios piratas – que fez com que todas as cidades (sem exceção, desde Nazaré a Camamu) desta região fossem construídas no interior de rios navegáveis, ao invés de no litoral, como seria de se esperar – e o medo dos ataques Aimorés, foram inconscientemente incorporados comportalmentalmente aos povos descendentes – de degredados e aventureiros (com seus vícios e distúrbios de conduta), de tupiniquins (ingênuos e culturalmente avesso ao trabalho fisico para o homem, já que o consideravam desonroso e exclusivo da mulher) e de Aimorés (arredios, inacessíveis e vingativos) – os povos que foram surgindo e se sucedendo nesta baixo sul  foram, em expressiva maioria, se tornando xenófobos (aqueles que têm aversão às pessoas e coisas estrangeiras) e que desconfiam de todos e de tudo além do seu  sectário familiar.

O Aimoré, indio ou india, quando aprisionado, preferia morrer de fome e sede a ter que sequer receber o alimento daqueles que o aprisionaram. Se herança xenófoba há hoje np habitante da Costa do Dendê, deve ter sido incorporado à forma de pensar no inconsciente coletivo do forro eugênico do colonizador degredado nos coitos com as indias tupiniquins, já que o colonizador degredado era o de pior que havia em Portugal na época.

Sobre a questão da transmissão eugênica de caracteristicas na forma de agir e de pensar há dois pensamentos que se contrapoem antagonicamente. De um lado, os defensores do médico e cientista italiano Cesare Lombroso, que afirma a transmissão genetica de caracteristicas no caráter e no comportamento. Do outro lado, a teoria psico-analitica freudiana, que por sua vez tem um pé no estribo das teorias comportamentais descritas por Karl Marx,  de que o homem é apenas o fruto do meio e dos fatores exogenos ao seu derredor  recebidos em sua educação.

Esse contraponto de opiniões é um intrigante tema para pesquisa e elaboração de estudo  aprofundado sobre a maneira de pensar do que aqui ficou e floresceu!

Segundo o cientista social Gilberto Freire, mais proximo a maneira de pensar de Lombroso, em seu clássico Casa Grande e Senzala, que se a descendência brasileira nos primórddios da colonização não nos ficou pior, em face à expressiva  carga genética corrompida, que nos fora doada pelos primeiros ancestrais, foi exclusivamente graças à notável contribuição da raça negra africana, muito superior em eficiência econômica e eugênica. Uma vez aqui chegados, introduzidos cruelmente pelo colonizador português, amaciaram as índoles posteriores e transmitiram aos descedentes,  além das características egocêntricas que já tinham herdadas da etnia colonial portuguesa,  também as proprias do seu povo de alegria, de expansividade, de sociabilidade, de musicalidade e de loquacidade.

Graças a Deus que não nos faltou o sangue africano!

Bibliografia:

–   Casa-grande & Senzala, Gilberto Freyre, 39ª Edição, Editora Record.

–   Capitães do Brasil – A Saga dos Primeiros Colonizadores, Eduardo

     Bueno, Editora Objetiva;

–  História  Econômica  do  Brasil, Caio Prado Júnior, 37ª. Edição, Editora Brasiliense;

– Visão do Paraíso – Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda, Editora Brasiliense; e

–   Pequena Enciclopédia Melhoramentos – Edições Melhoramentos;

RESUMO DA COLONIZAÇÃO BRASILEIRA EM RELAÇÃO À COSTA DO DENDÊ – INTRODUÇÃO

MOTIVOS QUE DETERMINARAM O INICIO DA COLONIZAÇÃO DO BRASIL NO SECULO XVI

Dois anos após Cristovam Colombo desembarcar, em 12 de outubro de 1492, na ilha de Guanaani, nas Bahamas, espanhóis e portugueses se uniram, para firmar o Tratado de Tordesilhas, firmado, com a chancela papal, na vila espanhola do mesmo nome, localizada a província de Valldolid.

Aquele tratado estabelecia um meridiano imaginário distante 370 léguas (2.220 quilometros) a oeste das ilhas de Cabo Verde, nas costas da África. As terras a oeste daquela linha imaginária pertenceriam à Espanha, e as a leste seriam de Portugal.

O Meridiano de Tordesilhas passava pelo Brasil, nas atuais cidades de Belém(no Pará) e Laguna (em Santa Catarina).

Só que as outras coroas européias que tinham também suas frotas e ficaram fora daquela partilha, não ficaram nem um pouco satisfeitas com a divisão do novo mundo em espanhol e portugues!

Os franceses, os ingleses e os holandeses, irresignados com o tal acordo, passaram provocativamente a também visitar as Américas, e extraírem madeiras, aprisionarem animais e índios para ser vendidos na Europa, como se fosse terra de ninguém, o que intranqüilizava as duas cortes (espanhola e portuguesa) que, pela autoridade papal  foram aquinhoadas com o bom bocado que, pelo Tratado de Tordesilhas, deveria só lhes pertencer.

No caso português, a ocupação do território brasileiro era uma necessidade inadiável a cada dia que se passava, face aos prejuízos econômicos que as embarcações francesas, inglesas e holandesas estariam, supostamente, trazendo à corte lusitana, com a exploração paralela e desautorizada que faziam.  Mas, não havia suficiente dinheiro nos cofres da coroa portuguesa para financiar aquela intentona.

Para piorar a situação das finanças do reino português, em 1531 um terremoto atingira Lisboa, sede do reino português, e os prejuízos materiais foram terríveis. A reconstrução dos estragos consumia um horror de dinheiro e não havia, por isso, recursos para exploração econômica do Brasil às custas da coroa. Mas a colonização, ou a tomada de posse do território português, que cada vez mais risco corria de ser tomada por outras coroas européias, era uma necessidade imperiosa que Portugal sabia que teria de fazer, o quanto antes!

Os ingleses, os holandeses e os franceses de todas investidas feitas na América do Sul só conseguiram mesmo ficar com os quinhões das Guianas, que os portugueses nunca conseguiram lhes tomar de volta!

Em 1532, quarenta anos após a chegada de Colombo às Bahamas, foram fundadas as primeiras vilas no Brasil: São Vicente, no litoral paulista, e Piratininga, onde hoje está a cidade de São Paulo.  Aliás, não só no Brasil. Na verdade, os primeiros estabelecimentos europeus em toda a América do Sul!

Se de um lado São Vicente era um excelente porto estratégico marítimo-fluvial que permitia o rápido acesso ao interior brasileiro, do outro, a vila de Piratininga, nome dado pelos indígenas à região delimitada pelos rios Tietê, Tamanduatei e Anhangabaú, onde hoje está a cidade de São Paulo, estava estrategicamente protegida pela barreira da Serra do Mar. Tinha a vantagem de ficar às proximidades do leito do rio Tietê, um dos formadores da bacia do Prata e que também era porta de entrada para os sertões brasileiros.

A propósito, nesse mesmo tempo, a Costa do Dendê está entre as mais antigas áreas de ocupação e precursora do povoamento do Brasil. As primeiras notícias sobre estas terras férteis e de águas abundantes remontam à terceira década do século XVI, quando Martim Afonso de Souza, militar e administrador colonial português, a mando do rei D. João III, o Colonizador, comandou uma expedição (1530-1533) de cinco navios, com a tríplice missão de explorar a costa litorânea do Maranhão ao Rio da Prata e impedir, ou combater, o comércio de pau-brasil pelos franceses, fundando os primeiros núcleos lusitanos no Brasil quinhentista, em seqüência a São Vicente e Piratininga

Aliás, Martim Afonso de Sousa foi o primeiro europeu a pisar nas praias da Costa do Dendê. Com razoável certeza, pode-se afirmar que esse colonizador, nascido no ano da descoberta do Brasil, ancorou sua frota no Morro de São Paulo, que, para os que não sabem, é uma falésia de arenito, que os índios tupiniquins denominavam de ty-nhã-ré (o que se adianta na água).  Na verdade, trata-se de uma ilha litorânea, separada do continente por um braço de mar (Canal de Taperoá) que, aos olhos dos índios, parecia um pedaço de terra “que avançava na água”. A prefeitura de Cairu bem que poderia pesquisar o exato local do fundeio e onde puseram os pés, os primeiros portugueses, e fazer no local algo que pudesse ser valorizado turisticamente!

Enquanto isso, na corte portuguesa da época, as pressões filosófico-religiosas sobre o rei D.João III, rei de Portugal, forçaram o monarca em meados de junho de 1533, a constituir uma força-tarefa de navios para levar a Roma o bispo católico D. Martinho, para que, na qualidade de embaixador português junto à Santa Sé,  promovesse as tratativas para levar a Inquisição às terras portuguesas – um clamor do clero e da nobreza frente ao crescente poder dos comerciantes judeus, que cada vez mais punha em risco o casamento igreja-estado na corte lusitana!

No início de agosto, a frota portuguesa que conduzia o embaixador religioso em direção a Roma entra no porto espanhol de Málaga para se reabastecer. Quando já se preparava para seguir viagem, percebeu a entrada de uma nau francesa, de nome Peregrina que atracou ao lado, onde estava as naus que compunham a comitiva lusitana. Os portugueses logo se deram conta que a nau francesa estava vindo da América, e passaram a desconfiar que viesse do Brasil.

Ao saber que os franceses precisavam de víveres, o comandante português espertamente os ofereceu de graça, o que foi prontamente aceito pelo capitão francês. Depois, já navegando juntas em águas internacionais, como naus amigas, os portugueses usaram de estratagema para prender o navio e a tripulação francesa e se espantaram com o que acharam nos porões do navio. Havia 15 mil toras de pau-brasil, 3 mil peles de onças, 600 papagaios, 1800 quilos de algodão e várias quartas de óleos medicinais de plantas brasileiras!

A prisão da nau Peregrina foi a gota d’água para que o rei português D. João III e seus assessores concluíssem que os acordos anteriormente firmados estavam sendo desobedecidos e que não havia alternativa: os portugueses teriam que imediatamente colonizar o Brasil, se não quisesse perdê-lo para outra coroa.

A prisão da nau francesa Peregrina por força-tarefa portuguesa, em águas mediterrâneas, nau aquela que transportava mercadorias vindas do Brasil, foi definitiva para se pensar em Lisboa da imediata necessidade de se colonizar o Brasil.

Aliás, aquele aprisionamente ocorreu praticamente de forma acidental, quando uma força-tarefa portuguesa que suspendera do Alentejo em direção ao Vaticano, para conduzir  o bispo católico D. Martinho, para que aquele religioso, na qualidade de embaixador português junto à Santa Sé,  promovesse as tratativas para levar a Inquisição às terras portuguesas, e foi definitivamente a gota d’água  que faltava para que o rei português D. João III e sua corte concluíssem que os acordos anteriormente firmados, em que a França se comprometia a respeitar o Tratado de Tordesilhas, não eram obedecidos e que não havia mais alternativas: os portugueses teriam que imediatamente colonizar o Brasil ou iriam perdê-lo para outras bandeiras.

Como não havia dinheiro nos cofres da coroa portuguesa, não demorou muito para que se decidisse que a colonização teria que ser feita com recursos da iniciativa privada. A fórmula encontrada foi a de se dividir o litoral em lotes com 50 leguas (300 km) de extensão de frente, sendo que para o interior a ordem era a de ocupar e explorar o que fosse possivel. Os concessionários foram denominados Capitães-Donatários e poderiam livremente explorar as riquezas que aparecessem, em nome do rei, com direito a transmitir aos seus herdeiros os direitos outorgados. Dois séculos antes, os portugueses tinham usado o mesmo sistema em território português continental, no Alentejo e no Algarves, após terem tomado aqueles territórios das mãos dos árabes, durante a reconquista cristã. E no século XV, ou seja, um século antes, a coroa portuguesa permitira a exploração, pela iniciativa privada, das ilhas de São Tomé, Príncipe e Fernando Pó, em frente à costa da Guiné, na África equatorial, nos moldes em que se tentava fazer no Brasil

Só que, ao contrário do que acontecera nos dois casos anteriores, em que as ocupações foram concedidas aos nobres da corte, naquele momento, no caso do Brasil, a nobreza lusitana não demonstrou nenhum interesse no projeto, de forma que os 15 lotes de 50 léguas (300 km) cada um de litoral formaram só 12 capitanias e tiveram que ser entregues a militares ligados à conquista da India e da África e altos funcionários da corte portuguesa.

Dos doze capitães-donatários, oito eram militares (conquistadores de territórios para a coroa portuguesa) e quatro altos funcionários da corte. Do total, apenas quatro já haviam estado no Brasil e, durante toda a donataria, só oito se interessam em ter contato pessoal com as terras tupiniquins. Isto é, quatro jamais puseram os pés por aqui! Tanto Jorge Figueiredo Correia como Lucas Giraldes, que o sucedeu, e receberam a capitania de Ilhéus, onde fica a atual Costa do Dendê, jamais vieram aqui!

Segundo o historiador Francisco Adolfo Vernhagen, a tarefa dos capitães-donatários era enorme e o rei D. João III só lhes dera mesmo as terras e o poder de explorá-las. Por causo disso, alguns daqueles donatários perderam as fortunas que tinham adquirido no reino ou na Índia, A respeito da epopeia daqueles desbravadores (para muitos, meros invasores das terras indigenas), Duarte Coelho Pereira, um dos donatários aquinhonhados, escreveu: “Somos obrigados a conquistar por polegadas a terra que Vossa Alteza, D. João III, nos fez mercê por léguas”.

Portanto, não é de todo estranho que das doze capitanias, apenas duas conseguiram florescer: Pernambuco e São Vicente (hoje Estado de São Paulo).

Há também sobre isto um fato curioso: com os donatários e colonos vieram, a partir de 1535, e em enorme quantidade, prisioneiros degredados, incursos em Portugal em gravíssimos crimes e que foram, por isto mesmo, condenados às penas de degredo, banimento e exílio. Portugal, ou melhor, a corte, para deles se livrar, espertamente os mandou para cá, durante o período de donataria, e aquela escória humana terminou por se transformar em nossos principais ancestrais, não sem antes terem dado um bocado de trabalho aos donos dos engenhos, colonos e familiares (em número muito menor) que aqui também vieram!

Enquanto os índios tupiniquins eram dóceis, afáveis, curiosos sobre os hábitos europeus e colaborativos na construção dos engenhos, cultivo da cana e feitura do açúcar  bruto e do melaço, desde que isto não lhe trouxesse desonra, os degredados, segundo o donatário Duarte Coelho, eram a peçonha que envenenava a nova terra, pois condenados as penas de expulsão de Portugal, por roubos e assassinatos, eram dados à mentira, à furtividade, e à traição. Mas como eram em grande número, em relação aos colonos, foram os grandes responsáveis pelo sangue português que se miscigenou com o das nossas nativas, gerando centenas de mamelucos, nossos ancestrais, que são a base da nossa etnia brasuca!

Regiões que economicamente estagnaram no tempo, como a Costa do Dendê, e que o sangue decorrente da miscigenaçao inicial com o degredado não foi refrescado por novos imigrantes de outra linhagem (isto é, que eugenicamente não tiham os mesmos problemas de caráter que os degredados portavam, segundo a teoria de Cesare Lombrosio) transmitiram aos seus descendentes graves e indesejados desvios de conduta, além da cultura da esperteza e da dissimulação.

Os mestiços dos portugueses com índias, com definido valor demogênico e social, formados pelos primeiros coitos, não oferece senão o interesse de terem servido de calço ou de forro para a grande sociedade híbrida que ia constituir-se, assevera Gilberto Freyre em Casa-grande & Senzala.

Segundo ainda o grande mestre de Apipucos (Gilberto Freyre) a carga genética decorrente da miscigenação com a matriz de degredados só não foi pior na formação da nossa raça, porque o sangue do negro africano (com características dispares e bem melhores que o degredado português ou mesmo que o marinheiro francês, inglês ou holandês) refrescou uma parte da descendência mameluca, transmitindo características eugenicamente diferentes, para nossa sorte. No entanto os mamelucos da base histórica colonial, que não se beneficiaram com o melhoramento genetico do sangue africano, estão aí, até hoje, dando mostras das indesejadas características de esperteza, oportunismo e deslealdade, mesmo entre si, não raro encontradas no dia a dia da Costa do Dendê!

RESUMO DA COLONIZAÇÃO BRASILEIRA EM RELAÇÃO À COSTA DO DENDÊ – 1ª. PARTE

A nossa Costa do Dendê, incrustada na Capitania dos Ilhéus,  entre a Capitania da Bahia, ao norte, e a Capitania de Porto Seguro, ao sul, onde hoje vivemos estava incrustada na donataria ou Capitania dos Ilhéus, que medindo 50 léguas (300 quilômetros) no litoral, começava na foz do rio Jaguaribe (aqui bem pertinho) e ia até a barra do rio Poxim, nas proximidades da ilha de Comandatuba, onde hoje há um portentoso empreendimento turístico-hoteleiro, que tem o mesmo nome. Aliás, aqueles marcos históricos bem que poderiam  ser mais valorizados turisticamente, se preocupação com o turismo houvesse mesmo por aqui!.

A Capitania de Ilhéus foi concedida a Jorge Figueiredo Correia, escrivão da Fazenda Real e  um dos homens mais ricos de Portugal da época, sendo que o foral de sua capitania lhe foi outorgada no dia 1º de abril (coincidentemente, hoje tido como o dia da mentira!) de 1535.

Segundo Gilberto Freyre, o ambiente em que começou a vida brasileira foi de intoxicação sexual. O europeu saltava na terra tupiniquim escorregando em índia nua. Os padres precisavam ter cuidado redobrado, senão atolavam o pé em carne morena. A tentação dos tropicos era demais. Muitos foram os clérigos que se deixaram contaminar pela devassidão,  já que segundo a voz corrente, não havia pecado no lado de baixo do Equador. Era o deleite carnal no paraíso!

O padre José de Anchieta, sobre isto, assim se refere: “Las mujeres andan desnudas y no saben negar a ninguno mas aun ellas mismas acometen y importunan los hombres hallandose com ellos em las redes, porque tienen por honra dormir com los Xianos.”

As mulheres índias, nos relatam Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda,  eram as primeiras a se entregarem aos brancos. As mais ardentes íam logo se esfregar nas pernas brancas daqueles homens diferentes (do que conheciam até então), já que elas, em sua ingenuidade e em maravilhosa permanente nudez, consideravam os europeus como deuses e se entrelaçarem com eles! Era para elas uma espécie de ato de honra! Mas, davam-se também ao europeu por um pente ou um caco de espelho.

Mas, o amor, diz o mestre Freyre, era só físico; com gosto só de carne, dele resultando filhos que os pais cristãos pouco se importaram de educar ou de criar à moda européia ou à sombra da igreja. Meninos e meninas cresceram à toa, pelo mato; alguns tão ruivos e de pele tão clara, que descobrindo-os mais tarde a eles e a seus filhos entre o gentio (indios pagãos, não cristãos e não civilizado) os colonos facilmente os identificavam como descendentes de normandos e bretões, ao invés de indios puros ou mestiço portugues, geralmente de sangue mouro, que lá ficaram durante sete séculos.

Não só os portugueses, mas também os franceses e de outras nacionalidades que aqui vinham, deram-se na nova terra ao luxo que na Europa só os nobres e burgueses ricos era possível ter: o de se cercarem de muitas mulheres.

Se da numerosa progênie mestiça, muitos foram absorvidos pelas populações tupiniquins, outros conservaram-se numa espécie de meio-termo entre a vida selvagem e a dos traficantes e flibusteiros, que aqui vinham em desobediência ao Tordesilhas.

FASE INICIAL E HÁBITOS CRIADOS NAQUELA ÉPOCA

A colonização do Brasil, com a instalação de empreendimentos agro-exportadores açucareiros, chamados engenhos de açúcar.

Aqui se produzia açúcar de cana que, na Europa, era refinado e comercializado, por comerciantes holandeses, a preços elevados.

Ainda hoje, aqui na Costa do Dendê, a maior marca física daquele ciclo é a coincidência de todas aquelas cidades estarem localizadas no interior de rios navegáveis, como Cachoeira, São Félix, Maragogipe, Nazaré, Aratuípe, Jaguaripe, Valença, Taperoá, Nilo Peçanha, Cayru, Ituberá, Camamu, por exemplo, ao invés de se situarem no litoral, como seria normal e desejável, para a facilitação logística.

Isto se deve ao fato de que são oriundas de povoados nas cercanias dos engenhos de açúcar, que depois se transformaram em vilas e depois em cidades, onde o português colonizador, dono do engenho, era obrigado a entrar rio adentro para se instalar, ficando assim fora do alcance visual de quem passasse pela costa.

Pretendiam, daquela forma, proteger-se da ação saqueadora de navios de outras bandeiras (holandesa, francesa e inglesa) que singravam os nossos mares, às vezes exclusivamente para realizar abordagens e pilhagens em embarcações de transporte ou em vilarejos costeiros. Era, por assim dizer, uma primária versão dos fora da lei, que hoje inferniza e atemoriza a nossa vida neste inicio do século XXI.

Sob o aspecto sociológico, havia também o hábito das pessoas de posse (os donos dos engenhos ou comerciantes que aqui vinham para melhorar de vida) esconderam os seus haveres (moedas e dobrões) em botijas enterradas nos subsolos ou no interior de paredes das casas, com medo de serem roubados e, assim, se protegerem.

Aqueles hábitos de então, também deixaram marcas profundas na cultura e no modo de agir do nosso povo, fazendo com que aqui se desconfie de quase tudo e de quase todos.

Além disto, desenvolveu-se também o gosto pelo bairrismo entre cidades e a competitividade local entre pessoas, comportamento, por assim dizer, cultural, automático e instintivo.Aquele ciclo de crescimento durou aproximadamente 1 século, isto é, de 1550 até 1650, período em que os holandeses enviaram tropas para invadir as duas áreas mais importantes de produção de açúcar no Brasil, respectivamente a Bahia (1624 a 1630) e Pernambuco (1630 a 1654). Como os holandeses, que já tinham o controle do refino e da comercialização do açúcar na Europa, queriam também garantir a produção no novo mundo, fato este motivado pela súbita transferência da coroa portuguesa às mãos do rei de Espanha, com quem a Holanda e a Inglaterra estavam em guerra.

O declínio da atividade agro-exportadora açucareira trouxe-se como reflexo imediato o empobrecimento não apenas da nossa região, mas também do resto da colônia brasileira, que mergulhou em estagnação econômica absoluta, quando o país ainda estava nascendo e armado o forro da civilização brasileira – e em particular o desta região  -.

RESUMO DA COLONIZAÇÃO BRASILEIRA EM RELAÇÃO À COSTA DO DENDÊ – 2ª. PARTE

FASE DA EXPLORAÇÃO DO OURO DE ALUVIÃO E A COLONIZAÇÃO DO SERTÃO

 A depressão econômica que o Brasil mergulhara com o fim e o fiasco do ciclo da cana de açúcar é interrompida pela descoberta do ouro de aluvião, em rios que estão localizados nos, hoje, Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Bahia (parte ocidental, ou oeste).

Dizem os estudiosos, em particular o notável pensador e professor de economia Celso Furtado, que se a produção e comercialização de açúcar no Brasil geraram recursos que possibilitaram a ocupação de um vasto trecho da costa e a defesa sistemática do país contra invasores estrangeiros, o ouro conduziu, sob governo dos portugueses, a colonização do extenso território interiorano, criando também a interdependência econômica entre suas partes.

Aqui na Bahia, a cidade de Rio das Contas, criada por Provisão Real em 1745, foi a primeira cidade planejada do Brasil. Até hoje a cidade preserva o  antigo traçado, apresentando praças e ruas amplas, igrejas barrocas, monumentos públicos e religiosos em pedra e o casario em adobe. Vale à pena ir conhecer!

Escravos alforriados que se instalaram na margem direita do Rio de Contas Pequeno, atual Rio Brumado, foram os primeiros habitantes da região de Rio de Contas. Em pouco tempo, formou-se o povoado denominado “Pouso dos Crioulos” (localizado no sul da Chapada Diamantina e dentro do Polígono das Secas).

No início do século XVIII, com a chegada de bandeirantes interessados em novas regiões de exploração do ouro, um novo arraial (hoje chamado de Mato Grosso) foi fundado, atraindo mais pessoas. Também naquela época chegaram os padres jesuítas à região.

Na segunda década do século XVIII, o Bandeirante Sebastião Pinheiro da Fonseca Raposo Tavares descobriu ouro no local, iniciando um ciclo que marcou a história da região, fazendo com que o povoado prosperasse rapidamente. Rico em ouro de aluvião, o município viveu na segunda metade do século XVIII uma época de grande prosperidade econômica. As tradicionais famílias importavam da Europa peças de uso pessoal e de decoração e, numa celebração à abundância, pó de ouro era lançado em pessoas fantasiadas de Imperadores e Rainhas nas procissões da Festa do Divino. Também são daquela época os casarões em estilo colonial, hoje tombados pelo patrimônio histórico.

Iniciaram-se, também, naquela época, as atividades suplementares de criação de gado e de culturas agrícolas. À proporção que novas levas de braço chegavam, para o garimpo, o arruado a margem do rio Itapicuru Mirim ia crescendo rapidamente, reunindo população inicial bastante densa e heterogênea.

A exploração aurífera prosseguia fora do controle oficial e em escala tão crescente que o governo português, para melhor garantir a arrecadação do seu dízimo, determinou que o Governador da Província (da Bahia) criasse duas casas de fundição, sendo uma em Jacobina e outra em Rio de Contas. O resultado foi surpreendente e auspicioso, arrecadando-se, na mina de Jacobina, em apenas dois anos, cerca de 3.841 libras (1.742 quilos) de ouro, não obstante a difícil fiscalização da atividade.

Toda aquela prosperidade começou a acabar já por volta de 1800 com a escassez do ouro, e agravou-se com a descoberta de diamantes na Chapada Diamantina, já na década de 1840. Grande parte da população de Rio de Contas transferiu-se para Mucugê em busca de novas riquezas (ao invés de ouro, pedras preciosas, agora!).

Voltando ao princípio do século XVII, a corrida de bandeirantes (paulistas) e portugueses às minas de ouro descobertas em terras do atual município de Jacobina foi a origem da corrente inicial da povoação da área.

A notícia de exploração de minérios fez fluir ao oeste baiano numerosos contingentes humanos, vindo de recantos longínquos, principalmente do atual Estado de São Paulo, sedentos em fazerem fortuna com o ouro fácil de aluvião. O Brasil era, desde os primórdios da colonização, a terra da aventura e os que vinham, ou tinham vindo, invariavelmente pretendiam fazer fortuna rápida, o que na Europa, ou mesmo no Oriente, no caso dos mascates, era muito difícil, praticamente impossível.

Se a colonização na região Centro Sul – principalmente no atual Estado de São Paulo, onde se localiza São Vicente (o mais antigo dos povoados brasileiros, fundado em 1532), no início foi precária, porque lá as condições para a produção açucareira não eram favoráveis, independentemente da questão de distância maior para os mercados europeus do que aqui (no Nordeste), toma grande vulto e velocidade no período do ouro, quando a população, ao longo de dois séculos, passa de apenas 100 mil habitantes para 3,5 milhões. Era de lá que partiam, para as aventurescas comitivas de exploração e povoamento, para Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e oeste da Bahia.

Euclydes da Cunha em seu clássico “Os Sertões” assevera: As gentes portuguesas não abordavam o litoral robustecidas pela força viva das migrações compactas… Vinham esparsas (as gentes que vinham), parceladas em pequenas levas de degredados ou colonos contrafeitos, sem o desempeno viril dos conquistadores… Para os que viviam em Portugal, o Brasil era a terra do exílio: vasto presídio com que se amedrontavam os heréticos e os relapsos, todos os passiveis do “morra per ello”.

Aliás, os forasteiros que chegaram aos litorais brasileiros na colonização (e depois entraram pelos sertões) eram, quase sempre, “homens de guerra, sem lares, afeitos à vida solta dos acampamentos, ou degredados e aventureiros corrompidos. Norteava-os a todos o aforismo o “ultra equinotialem non peccavi (não há pecado além da linha do equador)”, além do interesse de fazerem fortuna rápida para depois, quem sabe, retornar ao velho mundo.

Meio século antes, inicio do século XIX, as guerras napoleônicas na Europa, que obrigaram a mudança da sede da coroa portuguesa para o Brasil (1808), forçaram a valorização do algodão e do açúcar, trazendo um fio de esperança à economia brasileira.

Mas, as dificuldades do açúcar brasileiro (de cana) frente ao europeu de beterraba e ao de cana originária das colônias britânicas nas Antilhas e nas Bahamas, protegido pelo sistema de preferência (imposto pelos ingleses, já então senhores dos mares), aliado à competição do nosso algodão frente ao americano, que, por estar mais próximo da Europa, tinha custo de colocação menor, não nos dava trégua.  Aliás, esta história se repete até hoje com a soja, pois, quando os americanos a produzem, ficamos sem competitividade pelo alto custo do nosso transporte em relação ao deles (não só pela maior distância física como também pelas estradas, quase sempre em estado deplorável, e dos portos brasileiros com equipamentos antiquados e custos operacionais bem mais elevados, que encarecem muito o produto final exportável). No caso do milho, por exemplo, o custo de transporte rodoviário, das zonas agrícolas até os portos, chega a ser mais elevado do que o de produção!

Com a diminuição da produção do ouro, na metade do século XIX, o país, como um todo, mergulha outra vez em depressão econômica, quando a população já não tinha atividade econômica relevante, e era obrigada a se dedicar às atividades de subsistência e ao comercio.

A Costa do Dendê manteve-se estagnada, ao longo dos séculos. Até hoje, em Valença, a maior das cidades regionais, tem a sua atividade econômica principal pousada no comercio, com quase 70% da riqueza produzida. A indústria, infelizmente, só participa com pouco mais de 14% e a atividade agrícola com 9,13%, embora o município tenha extensa área geográfica – 1.190 quilometros quadrados. Para melhor compreensão, ver o quadro abaixo.

Produto Interno Bruto 2005 -Valença – BA

ITEM DESCRIÇÃO VALOR ANUAL %
1 Valor adicionado na Agropecuária – 2005 29,40 milhões de reais 9,13%
3 Valor adicionado na Indústria – 2005

 

46,31 milhões de reais 14,38%
3 Valor adicionado no Serviço – 2005

 

215,65 milhões de reais 66,98%
4 Impostos – 2005

 

30,62 milhões de reais 9,51%
PIB a Preço de mercado corrente – 2005
321,98 milhões de reais 100,00%

Fonte: IBGE – Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais.

Em todos os ciclos de crescimento posteriores ao de cultivo da cana de açúcar, a nossa região (Costa do Dendê) permaneceu alheia ao que acontecia e estagnada no tempo, como vimos acima. E lá se iam três séculos de colonização. Os que aqui ficaram, refiro-me à Costa do Dendê, se encolheram, com exceção dos que se lançaram na atividade comercial, em que alguns se sobressaíram e até fortuna construíram (e constroem, até hoje).

RESUMO DA COLONIZAÇÃO BRASILEIRA EM RELAÇÃO À COSTA DO DENDÊ – 3ª. PARTE

CICLO DO CAFÉ

Finalmente, por volta de 1830, com advento do cultivo do café, que passou a ser consumido em grandes quantidades, inicialmente nos Estados Unidos e depois na Europa, o Brasil do centro-sul experimenta um novo alento de prosperidade. Mas, aquela prosperidade estava localizada na região Centro Sul (Vale do Rio Paraíba, ao norte do Estado de São Paulo e sul do Estado do Rio de Janeiro), embora a nossa região (e todo o nordeste) fosse geograficamente mais próxima dos mercados de venda.

A produção de café, logo que começou, baseou-se nos recursos de mão-de-obra e de capital, que estavam subutilizados na região Centro-Sul do país, com o declínio do ciclo do ouro e das pedras preciosas.

Os que tinham feito um bom dinheiro no ciclo do ouro foram para o Vale do Paraíba e lá tomaram posse da terra e desmataram (com a mão de obra africana), começando a desenvolver os cultivos agrícolas e instalar as primeiras fazendas. Depois, o café, toma força e passa a ser o sustentáculo de toda a economia nacional.

Quando a importação regular e oficial de escravos africanos finalmente cessou, na década de 1850, a atividade agrícola de cultivo de café necessitava de outros braços humanos na lavoura, que só poderiam ser conseguidos com a importação legal de mão de obra, através da imigração de colonos europeus (bem mais fortes que os orientais, que também poderiam imigrar para cá. Os primeiros japoneses, que aqui vieram para as lavouras de café do interior de São Paulo, só recebiam 2/3 da remuneração dos italianos e alemães). No entanto, o suprimento de mão de obra começou a ser de difícil obtenção e se tornou fator restritivo à expansão do café. Era caro trazê-los!

A possibilidade de um influxo natural e vigoroso de emigrantes europeus para o Brasil tinha na contra mão o fato da distância menor da Europa para os Estados Unidos, que também havia abolido a escravatura e precisava importar mão de obra assalariada para substituir a escrava, na sustentação e expansão da sua agricultura. Contavam os americanos, a seu favor, com a viagem de navio mais curta e mais barata. Alem disso, os americanos também tinham mais dinheiro para custeá-la.

Era, portanto, quase impossível, atrair imigrantes para que trabalhassem nos cafezais, como trabalhadores assalariados, sem que os custos da viagem e instalação inicial das famílias fossem financiados pelos proprietários das terras.

Aliás, era comparativamente muito mais caro trazer famílias de imigrantes para trabalharem nas roças de café do sudoeste do Brasil, do que a simples compra de escravos africanos nas mãos de mercadores locais, mercado aquele que fora proibido no 2º Império e que, por sua vez fora abastecido, por mais de três séculos, por navios mercantes, que os transportava em seus porões, como se animais fossem, valorados apenas pelo preço de aquisição na costa africana e transporte para a brasileira.

Aqueles nossos ancestrais africanos eram comprados, em muito locais da costa africana, e principalmente na ocidental, em mãos de mercadores (também africanos) que, antes, muito bem armados pelos europeus, entravam África adentro e invadiam as suas tribos e os acorrentavam para vendê-los como uma mercadoria aos navios de trafico que fundeavam no litoral.

Daí então, aqueles infelizes eram compulsoriamente transportadas para muitas partes do mundo para serem outra vez vendidos, separadas dos seus familiares e muitas vezes até de pessoas que conheciam em sua terra natal.

O que norteava a destinação dos nossos ancestrais africanos era a que os homens tinham maior valor (o dobro) do que as mulheres e, dentre os primeiros, os mais jovens e fortes obtinham maior valor no comercio simples ou de escambo (troca por outras mercadorias).

Os escravos africanos que alcançassem maior valor comercial eram prioritariamente selecionados para as encomendas já feitas (muitas vezes até na própria Europa) e para o sul dos Estados Unidos, Antilhas e Bahamas, onde se podia obter preço mais alto.

Não podemos nos esquecer que no Brasil, desde que o ciclo econômico da cana de açúcar se mostrou cadente, os donos de terra e comerciantes não tinham muito dinheiro, como os plantadores de algodão e fumo do sul dos Estados Unidos e de cana de açúcar das Ilhas atlânticas.

O ciclo do ouro e o que o sucedeu, o das pedras preciosas, não utilizava a mão de obra africana no extrativismo, pois frequentemente fugiam e se embrenhavam nas matas. Eram mais utilizados no transporte de cargas, em auxilio às mulas.

O Brasil era, por tudo isto, a segunda opção para os mercadores que traziam os nossos ancestrais do continente africano.

Logo no inicio, o cultivo do café no Brasil, com o regime de escravatura nos estertores, ainda não era suficientemente forte (economicamente) para arcar com o custo de importação de trabalhadores europeus e asiáticos, que escravos não eram. Fora necessária uma política governamental ativa para subsidiar a imigração e que pagasse a passagem e a instalação inicial dos colonos estrangeiros com suas famílias. E o governo central (no segundo império), mesmo que a contragosto, mas sem opção, a adotou.

 Logo, o número de imigrantes conduzidos ao Centro-Sul do Brasil cresceu. Na década de 1870, a região cafeeira de São Paulo recebeu 13 mil imigrantes. Na de 1880 cerca de 180 mil. E na de 1890, 609 mil tinham sido trazidos, obviamente com ajuda governamental. Ao mesmo tempo a produção brasileira subia de 3,7 milhões de sacas no inicio da década de 1880 para respectivamente 5,5 milhões e 16,3 milhões nos decênios que se seguiram.

 Com a produção mundial cada vez mais crescente, motivada não só pelo Brasil, mas também por outros países que também passaram a produzir café, não tardou muito a começarem as longas e intermitentes baixas de preço no mercado internacional, fazendo com que o governo federal brasileiro se visse politicamente obrigado a intervir internamente, comprando o excedente de produção e tentando conter as quedas de preços cada vez mais freqüentes.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO

 

RESUMO DA COLONIZAÇÃO BRASILEIRA EM RELAÇÃO À COSTA DO DENDÊ – 4ª. PARTE

ÀS  VESPERAS DO SÉCULO XX

 Finalmente as vésperas do século XX chega às terras brasileiras e ao nosso povo. Já não éramos mais colônia de Portugal e até a República já tinha tomado assento em nossas mesas. Mesmo assim, as pessoas que não sabiam ler não podiam votar. As mulheres e os adolescentes, também não! Não havia previdência social que garantisse um salário na hora de parar de trabalhar, nem os trabalhadores eram indenizados quando despedidos eram dos seus empregos. No máximo, recebiam um muito obrigado. Tempos difíceis e de muita injustiça social.

O Rio de Janeiro, a maior das nossas cidades tinha uma população aproximando-se das 700 mil habitantes, enquanto São Paulo já superara os 200 mil. Em nenhuma cidade brasileira havia uma rua calçada ou um esgoto sanitário, nos moldes atuais.  O Rio de Janeiro continuava uma cidade de ruas sujas e estreitas, vielas tortuosas (ao gosto português) e epidemias mortíferas. Embora fosse tida mundialmente como uma cidade belíssima, era linda apenas vista à distancia, de um navio. Muitas linhas de navegação ofereciam viagem direta da Europa para Buenos Aires sem passar pelo Brasil face aos focos de febre amarela do Rio de Janeiro, que ceifaram milhares de vidas. Com os navios de imigrantes, nos chegara a varíola na década de 1850. Um navio americano nos teria trazido a peste bubônica por volta de 1890.

A propósito, a Independência, ou quebra da condição de colônia de Portugal, nos chegara silenciosa, por um ato de rebeldia, proclamada por um português, legitimo herdeiro do trono de lá, que não queria deixar a vida aventuresca que aqui levava e, naquele momento, estava sendo chamado de volta à Portugal, onde nascera e vivia a sua família, para se preparar para, quando chegasse a hora, poder assumir o trono que lhe havia se destinado pela tradição monárquica.

A República também nos chegou, 67 anos depois da Independência, de forma silenciosa e também por um ato rebeldia de alguém que estava a serviço do Império. Seu articulador (pai mesmo) fora Benjamin Constant Botelho de Magalhães, tenente-coronel do Exercito, adepto do positivismo de Auguste Comte (filósofo francês, 1798-1857). O coronel Benjamin Constant era um ilustre militar, engenheiro, matemático, professor da Escola Militar (predecessora do Instituto Militar de Engenharia) e da Escola Politécnica (atual Faculdade de Engenharia). Fora escolhido pelo Gabinete do Imperador para ser o supervisor educacional dos netos do Imperador, já que um deles (provavelmente o mais velho) se tornaria Imperador do Brasil, um dia.

O coronel Benjamin puxava muito intelectualmente pelos meninos e lhes era muito severo, cobrando permanente atenção nos estudos, o que infelicitava a vida dos moleques. Foram, então, se queixar à Imperatriz Tereza Cristina, sua avó (esposa de Pedro II e filha de Francisco I das  Sicílias), que não se fez de rogada. Chama o coronel Benjamin Constant e lhe repreende seriamente, pedindo mais respeito com os seus netos.

Pronto! Foi o pingo d’água que faltava. O coronel, com os brios feridos, pede dispensa das funções de preceptor dos netos do Imperador, que nada fez em sua defesa, e foi para o Clube Militar para conspirar e tramar a mudança do regime.

Não seria fácil derrubar Pedro II, principalmente porque o comandante das tropas do Exercito no Rio de Janeiro era, nada menos que, o general Floriano Peixoto (mais tarde chamado de o marechal de ferro), militar enérgico e temido em todo o Exército, por ser valente, estrategista e duro com os vencidos. Floriano, entretanto, tinha grande admiração, respeito e amizade pelo marechal Deodoro, alagoano como ele, seu ex-comandante e que muito lhe ajudara em sua carreira militar.

A solução era chamar o velho marechal Deodoro da Fonseca para o seu lado (para neutralizar o afilhado Floriano), e assim Benjamin Constant e o seu grupo de coronéis espertamente fizeram. Convidaram o doente marechal  para ser o presidente da república, no novo regime provisório, e o velho sucumbiu à tentação, mesmo tendo grande afeição ao imperador!  Deodoro, mandou chamar Floriano em casa, expôs o plano golpista e o convidou para ser seu vice no governo provisório, o que, de pronto foi aceito.

Removida a dificuldade maior que era Floriano, agora do lado dos coronéis republicanos (e golpistas) do clube militar (que também tinham ao seu lado a figura de Quintino Bocaiúva, político,  jornalista e republicano), a mudança do regime político foi um passeio, pacífica, sem um tiro, para desapontamento geral do país, que tinha por Pedro II grande apreço e carinho.

Um dia antes do golpe, de 15 de novembro de 1899, o presidente do Conselho de Ministros (que corresponde no parlamentarismo de hoje ao de primeiro ministro), o Visconde do Ouro Preto, mandou chamar o general Floriano para saber o que estava acontecendo, pois fora informado de que havia coronéis no Clube Militar conspirando a queda do Imperador e do regime parlamentar-monárquico. Floriano, já de cabeça feita pelos insurretos lhe respondeu: Não dê importância, senhor ministro, ao que dizem, pois se for coisa contra os casacas (monarquistas) tenho cá minha velha garrucha e num instante boto essa turma toda pra correr!

Mas, no dia seguinte, quando os rebeldes tomaram o campo de Santana (nas cercanias do ministério da Guerra), Ouro Preto manda chamar Floriano e lhe dá ordens para combatê-los, recomendando que usasse do mesmo rigor e bravura que o notabilizou na guerra do Paraguay.  Floriano então se sai com essa: Lá as bocas de fogo eram inimigas. Essas que vossa excelência está vendo são brasileiras!

 Não demorou muito e Ouro Preto é que terminou preso e exilado!

 A queda do Imperador trouxe muita tristeza e consternação em todo país. Afinal, o seu governo monárquico-parlamentarista de 59 anos é, até hoje, o período mais longo da história brasileira e um dos mais extensos da história mundial. O poder, representado pelo gabinete, tendo como presidente do Conselho de Ministros o Visconde do Ouro Preto, foi docilmente derrubado pela quartelada de 15 de novembro de 1889 (gabinete aquele que só durara quatro meses).

No entanto, Pedro II foi um dos mandatários mais admirados do cenário nacional, consagrado pela defesa à integridade da nação, pelo incentivo à educação e à cultura, pela defesa à abolição da escravidão e pela diplomacia e relações com personalidades internacionais. Caiu pela ação desencadeada por um único homem, que cheio de mágoas, infundadas ou não, derruba um homem de bem e todo o seu governo de quase sessenta anos.

Pedro II era um homem culto, chamado de príncipe filósofo por Lamartine e Victor Hugo e um homem de ciência por Luis Pasteur. Era também detentor da admiração e amigo pessoal (com quem mantinha ativa correspondia) de Charles Darwin, de Richard Wagner e  de Friedrich Nietzsche, entre outros notáveis mundiais, da sua época.

Durante o segundo reinado, Pedro II fez com que o Brasil vivesse um período de estabilidade política, desenvolvimento econômico e grande valorização da cultura, além de utilizar o patriotismo como força de defesa à integridade nacional. Apesar de, muitas vezes, demonstrar certo desgosto pelas intensas atividades políticas, o segundo e último imperador do Brasil tinha em torno de si uma aura de simpatia e de grande confiança entre os brasileiros.

      Voltando ao momento da proclamação da República, tudo resolvido, entre o Clube Militar (que até hoje congrega os oficiais das três forças armadas – na época eram só duas – e principalmente do Exército) e a casa de Deodoro, foi, em seguida, informado o imperador da sua deposição, com ordens expressas de que imediatamente deveria se retirar do país, com todos os seus familiares e despesas custeadas pelo tesouro brasileiro.

         Pedro II, ao invés de Lisboa, preferiu ir para Paris (com todo o seu entourage,  já que era sobrinho, por parte de mãe, de Napoleão Bonaparte e primo do Imperador Napoleão II, além de Paris, a cidade luz, ser uma cidade maior, mais bela e com mais recursos que Lisboa), mais adequada à sua importância intelectual, onde viveu até morrer, lamentavelmente só dois anos depois.

Deodoro, velho e doente, tomou posse no governo provisório no mesmo dia 15 de novembro, à noite, em sua casa (dizem até que de pijama, mesmo). Floriano, conforme lhe fora prometido, fora o seu vice (não oficial, pois era um governo provisório). Benjamin Constant virou Ministro da Guerra, embora fosse só tenente-coronel e, às pressas, promovido a general. Aliás, o governo de Deodoro começara e terminara no mesmo lugar: na cama, na casa de Deodoro. Todos os militares golpistas (coronéis e tenentes-coronéis) foram imediatamente promovidos e se tornaram generais. Mas, a nova constituição republicana só foi de fato aprovada em 5 de fevereiro de 1891, mais de um ano depois.

Vinte dias depois da promulgação da nova constituição republicana, o Congresso elegeu Deodoro como primeiro presidente (legitima e indiretamente eleito), com 129 votos contra 97 de Prudente de Morais. O curioso é que naquela eleição, Floriano, que já se desentendera com os científicos (Benjamin Constant e sua turma), concorreu ao cargo de vice-presidente já não mais na chapa de Deodoro, mas na de Prudente de Morais (velho político e oligarca paulista que concorreu com Deodoro nas primeiras eleições indiretas para presidente da República), e que veio a ser, mais adiante, o primeiro presidente realmente eleito por voto direto.

O candidato a vice na chapa de Deodoro foi o seu ministro da Marinha, o almirante Eduardo Vandenkolk. Pra encurtar a estória, Floriano foi eleito como vice-presidente com 153 votos (24 a mais do que o próprio Deodoro) contra 57 votos a favor de Vandenkolk. Naquela época, aliás até os tempos em que eu era menino (na eleição de Janio Quadros) o vice era desvinculado do presidente e podia ser eleito, mesmo que fosse de outro partido político. O governo militar pós 64 acaba com isso!

No dia da posse, o Congresso recebera Deodoro com um silencio constrangedor para, minutos depois, aclamar Floriano com urras ensurdecedoras de viva Floriano!

Ainda em 1891, em 3 de novembro, Deodoro, visivelmente indignado  com a lei recém aprovada pelo Congresso que permitia o impeachment do presidente, manda fechá-lo (o Congresso) e decreta Estado de Sítio.

Vinte dias depois, o almirante Custódio de Mello, a bordo do encouraçado Riachuelo, toma as dores e ameaça bombardear o Rio de Janeiro, para fazer Deodoro voltar atrás.  Deodoro, doente e sem força, é aconselhado a renunciar, o que faz a contragosto, a favor de Floriano (o seu protegido do passado, que agora se bandeara para o outro lado).

A história retrata o marechal Deodoro da Fonseca como um governante teimoso, autoritário e inexperiente administrativamente. A política econômico-financeira do seu ministro da Fazenda (o grande jurista baiano Ruy Barbosa) foi um desastre e mergulhara o país no caos. Ruy Barbosa fluente na língua inglesa e cultura americana tinha idéias modernas em relação a criação da Bolsa de Valores e mercado financeiro. Permitira que os bancos e empresas emitissem títulos de captação de recursos que passaram a ser negociados como se dinheiro fosse, o que terminou gerando inflação e quebra sistemática de empresas e de bancos.

Deodoro, oito meses depois de renunciar, morre, triste e solitário. Pedira para ser enterrado em trajes civis, mas não foi atendido. Foi sepultado com honras militares e vestido com a farda de marechal, com toda pompa.

O governo de Floriano foi também muito tumultuado. Restabeleceu o Congresso e suspendeu o estado de sítio. Mesmo assim, era considerado um governo inconstitucional, pois já começava a vida republicana ferindo a primeira constituição republicana em seu artigo 42, que rezava que se o presidente eleito fosse impedido de governar (por qualquer motivo), sem completar metade do mandato, ao invés do vice assumir, novas eleições deveriam ser convocadas (uma espécie de arremedo à destronação do parlamentarismo).

Mas, Floriano sentiu-se à vontade no papel de “consolidador da república”, e lançou as bases de uma ditadura de “salvação nacional”.

Fez um governo nacionalista, austero e centralizador; enfrentou implacavelmente os seus inimigos (como era do seu estilo) e demitiu (mesmo ferindo a lei e a Constituição) os governadores que haviam apoiado Deodoro; venceu a quebra de braço com a Marinha, na segunda revolta da Armada. Tornou-se o Marechal de Ferro. Queria a reeleição, mas, num lance de lucidez, se negou a dar o golpe – articulado pelos seus aliados políticos jacobinos – contra a posse do primeiro presidente eleito por voto direto, Prudente de Morais, que o sucedeu. No Sul, Floriano, dá apoio militar e financeiro a Júlio de Castilho, que se contrapora ao movimento denominado Revolução Federalista (de raiz monárquica e liderado pro Gaspar Silveira Martins) e ficara com Floriano e a República presidencialista.

Aliás, o fato mais importante que Floriano enfrentou em seus três anos de vice-presidente em exercício (era assim que assinava os seus atos) foi a Revolução Federalista, que estourou no Rio Grande do Sul em fevereiro de 1893. Floriano tomou o partido de Júlio de Castilho, como disse antes, no confronto com os federalistas, ou maragatos, unidos em torno de Gaspar Silveira Martins. Já nos fins de 1893, os integrantes da Revolta da Armada (Marinha) se uniram aos maragatos e invadiram a cidade de Nossa Senhora do Desterro (capital do Estado de Santa Catarina), proclamando-a sede do governo provisório do Brasil.

Em abril de 1894, as forças legalistas, sob o comando do coronel Moreira Cesar (o mesmo que, anos depois, tomba em Canudos, abatido pelas forças matutas de Antonio Conselheiro), retoma a cidade e cruelmente imprime dezenas de fuzilamentos sumários aos federalistas. Por fim muda o nome da cidade (sede do governo dos insurretos) de Nossa Senhora do Desterro para Florianópolis, em homenagem ao marechal Floriano!

Pior que os fuzilamentos sumários de Moreira Cesar (se é que é possível algo pior) foram as sangrentas degolas perpetradas no Rio Grande do Sul, tanto de um lado como do outro. As vítimas eram mortas da mesma forma como se abatiam carneiros: forçados a se ajoelhar ante seu algoz, tinham a cabeça colocada entre as pernas do executor, que então lhes rasgava a carótida com um súbito golpe de faca. Rápida, silenciosa, barata e cruel, a degola fora a forma favorita de execução ao longo de dois anos e meio, durante os quais a guerra civil de 1893 sangrou o Rio Grande do Sul.

De qualquer forma, as atribulações políticas do governo Floriano – ampliadas pela Revolução Federalista do Rio Grande do Sul – levaram as elites políticas à conclusão de que deveriam afastar os militares da política e retomar o controle do país.

A eleição de 15 de novembro de 1894 representou o retorno ao poder da  classe dos grandes e ricos fazendeiros – que econômico e politicamente sustentara o império. Diziam os jornais da época que, sob a vestimenta republicana, o federalismo conservador saiu vitorioso! Voltou a mandar no país! Foi eleito Prudente de Morais!

Embora tenha sido o primeiro presidente eleito por voto direto, o governo de Prudente de Morais não teve estabilidade, nem política nem econômica, durante os quatros anos que durou o seu mandato.

A revolta de Canudos eclodiu no interior da Bahia e tumultuou o país. Aliás, desde o inicio, o governo Prudente seria tido por pusilânime, embora o presidente Prudente tenha sido submetido a humilhações, desde o dia da sua posse. Teve de ir ao ato de transmissão de limousine alugada (pois os florianistas lhe negaram o carro oficial antes que assumisse). Lá chegando, não teve sequer ninguém para segurar o seu chapéu. Além disto, os políticos jacobinos haviam articulado um golpe para impedir a sua posse, que só não foi consumado porque o próprio Floriano não permitiu.

Prudente, logo em seguida, anistia os rebeldes gaúchos, o que lhe valeu severas criticas dos seus opositores, que o chamam de frouxo e fraco. Ao invés de Prudente de Morais era jocosamente chamado pelos jornais de prudente demais! Em novembro de 1896, doente, precisou se afastar da presidência e o seu vice – Manoel Vitorino, político baiano e florianista de carteirinha – assume o cargo e muda todo o ministério, trocando os aliados de Prudente por florianistas.

Logo que se recupera, Prudente reassume em março de 1897, para em novembro do mesmo ano ser vítima de um atentado, em que morre o ministro da Guerra, Carlos Bittencourt. Ai, perde a cabeça (ou a recupera) e vira a mesa: manda fechar o Clube Militar; prende senadores e deputados e processa o vice Vitorino, consolidando a “República Oligárquica”  ou “República dos Fazendeiros (café com leite)”, que se arrasta até o golpe getulista de 1930.

O que a história registra e nos deixa como lição é que a Proclamação da Independência, da forma que nos foi trazida, com implantação do governo presidencialista, centralizador, fora, no mínimo, um retrocesso. Já éramos, no segundo Império, parlamentaristas, coisa que nunca mais conseguimos retomar (exceto durante o governo Goulart, durante curtíssimo tempo).

O imperador era o quarto poder, o moderador (chefe do Estado, não do governo), e quem administrava o país era o Primeiro Ministro e o Conselho de Ministros, eleitos por voto popular e sujeitos a perder o posto, quando as coisas não caminhavam bem, como as nações desenvolvidas, hoje fazem. Algumas o mantêm (o parlamentarismo) com a figura de um monarca como Chefe de Estado, como na Inglaterra, na Espanha (que o trouxe de volta há menos de três décadas), na Holanda, na Bélgica, na Suécia e no Japão.  Outras têm um presidente como Chefe de Estado e um Primeiro Ministro como Chefe de Governo, como Portugal, França e outros países que agora não me lembro.

A mudança do que estava dando certo, refiro-me à forma de governo, durante 59 anos na vida dos nossos ancestrais, trouxe-nos muito mais desacertos e retrocessos do que avanços.

Provavelmente o país poderia ter se desenvolvido muito mais, se parlamentaristas permanecêssemos, inclusive com os avanços sociais que a república presidencialista permitiu, só que bem antes. O mais curioso é que todos os presidentes recentes se declaram parlamentaristas (refiro-me a Dilma, Lula, Fernando Henrique, Itamar Franco, Fernando Collor e José Sarney), mas julgam aquele modelo como uma coisa para o futuro. Para quando o país amadurecer mais!  Esquecem-se, entretanto, que há 124 anos passados já éramos e deixamos de ser por um infeliz incidente! Por uma simples questão de inconsequente vingança pessoal!