VERSOS POÉTICOS – Contra-Ponto

  •  Te conheço pouco, rainha
  •   – quase nada  – ,
  • Mas, das tuas coisas
  •       – mesmo que breves  –
  • ficaram-me as que gosto
  • e outras,
  • que correção daria.
  •  
  • Nas primeiras:
  • do teu tornozelo, a dimensão, a forma;
  • do teu cabelo, o fio, o corte;
  • da tua conversa, o interesse, o em comum;
  • do teu companheirismo, o desprendimento, a exercitação; e
  • do teu ser boa mãe, o determinismo, a demonstração.
  •  
  • Nas que carecem reparo:
  • da tua varanda, a inexistente planta, o desdém;
  • da tua taça de vinho, a estranha pescaria, a inusitada ação;
  • do teu se aculturar, o direcionamento, o motivo;
  • da tua ausência, o passivo silêncio, a ativa lembrança; e
  • do teu caminho, o outro lugar, o que não é o meu.

VERSOS POÉTICOS – Diferente do Poeta Bandeira

  • As minhas mãos estão vazias,
  • Meu peito deserto,
  • O céu escuro, sem viva estrela,
  • E a madrugada já quer
  • Ir embora.
  •  
  • Os galos, em fervoroso ritual,
  • Cumprem da sua obrigação
  • De avisar ao mundo,
  • Com matemática frequência,
  • Que é quase chegado um novo dia,
  • Quando, não tenho perto os que gostam de mim,
  • Ao invés dos que me são indiferentes.
  •  
  • Se a indesejada das gentes me chegar logo
  • – dura ou caroável -,
  • Diferente do poeta
  •  – Bandeira –
  • Não lhe direi alô, iniludível.
  •  
  • Ao contrário, lhe rogarei para voltar noutro dia.
  • Para ter um pouco mais de paciência,
  • Tentando justificar que o meu dia não foi rendoso,
  • Tampouco os sortilégios da noite se cumpriram:
  • O campo não está lavrado;
  • A casa não está limpa;
  • A mesa não está posta; e…
  • Não há quase nada em seu lugar.
  •  
  • Ao me olhar no espelho, de manhã, logo mais,
  • Darei de cara com um estranho
  • – só por dentro a fidelidade persiste -.
  • Preciso antes encontrar a parte que me fugiu,
  • Me abandonou,
  • Para podermos seguir juntos, enfim completos,
  • Quando poderá voltar,
  • E com ela nos levar,
  • Se ainda o desejar!

VERSOS POÉTICOS – Nem Minas, Nem Europa, Nem Graciosa (Só a Timidez de Volta)  

  • Que fique, no ar, a reticência.
  • Que fique, em mim, conveniente e diplomático, o nada pessoal.
  • Que deixe tudo como está.
  • Que até agradeça, por não ir adiante, me dizendo com palavras:
  • Que o alimento do seu sonho se esfumaça em risco e cor;
  • Que não faria sentido contar estrelas no céu, ao meu lado; e
  • Que ir a Minas, Europa ou Graciosa, planos não tem que me inclua.
  •  
  • E,
  • Não se preocupe,
  • Se nos meus versos quase foi
  • A mulher que eu quis amar.
  • Ao me aperceber,
  • Ao me despertar,
  • Ao me enxergar,
  • Rimei-lhe, em rima rica,
  • Como rainha (soberana absoluta),
  • Como sobrinha (quase filha, na hierarquia afetiva),
  • Como passageira (com vocação pra posseira)
  • Da minha afeição, do meu coração. 
  •  
  • E,
  • Ontem mesmo,
  • Ao encerrar a não terminada conversa,
  • O vazio voltou ao controle do meu sentimento,
  • Neutralizando o resto da aspiração que houvera.
  • Logo, em seguida, lembrei de chamar, pra perto de mim, de volta,
  • A timidez
  • De quem, já havia me desembaraçado, quando conheci você –
  • E pedi que me perdoasse a ingratidão do súbito abandono.
  •  
  • Ela,
  • A timidez
  • Diferente de você -,
  • Ouviu-me primeiro, deixando-me falar à vontade.
  • Em disciplinado silêncio, não me interrompeu.
  • Depois que terminei,
  • Ao chegar sua vez,
  • Tomou da palavra, e me disse:
  • Tudo bem, companheiro;
  • Eu também estava sentindo a sua falta;
  • Não demoro muito, estou chegando; e
  • Vê se, desta vez, não esquece nunca mais
  • Que é mais fácil, é melhor, pra você,
  • Não tentar viver sem mim.
  • Um pro outro, fomos feitos.
  • Faz tempo, nos damos bem.

VERSOS POÉTICOS – Visões que Desgosto ou Não Sei Gostar

  • Vindos por diferentes caminhos,
  • Ora lhe encontro,
  • Ora lhe procuro, até encontrar,
  • Vez por outra, quando há tempo,
  • Vez por outra, quando a noite permite:
  • Às vezes, dizendo-se espaçosa;
  • Às vezes, dizendo-se amorosa;
  • Às vezes, dizendo-se algoz;
  • Às vezes, dizendo-se cúmplice;
  • Às vezes dizendo-se conservadora;
  • Às vezes, dizendo-se liberal.
  • Mas sem querer, sem saber, bem, o porquê,
  • à sua presença, acostumado, fico,
  • Afeiçoado me torno.
  •   
  • E quando passa, se vai, ou vou, eu:
  • Sinto  falta do seu mundo liberal;
  • Sinto falta da sua irreverência;
  • Sinto falta da sua presença;
  • Sinto falta da sua  música;
  • Sinto falta da sua catedral.
  •  
  • Lembranças distantes, do seu nome, sinto, também,
  • Da minha distante terra, da minha distante infância.
  • O seu rosto, imagens de televisão, me faz lembrar.
  • E tenho visões, de um lado do seu jeito, que, às vezes,
  • Desgosto,
  • Ou melhor, que não sei gostar:
  • Os seus pés, livres, preferia guardados;
  • Outras coisas, multi-ton, onde se inclui seu cabelo,
  • Queria de um só;
  • O seu peito, continental, como o seu amor,
  • Preferia mais exposto, preferia mais aberto.
  • O rosto, o resto, deixe como é,
  • Deixe como está…

VERSOS POÉTICOS – Reflexos Casuais de Diferentes Matizes

  •  Se em algo lhe vejo mudar,
  • Nos intervalos em que lhe vejo,
  • De culpa lhe absolvo.
  • São reflexos casuais
  • – de diferentes matizes  –
  • Do que de mim recebe,
  • Do que a mim devolve.
  •  
  • Mas,
  • Se,
  • De fato,
  • Quer saber como lhe vejo agora,
  • Poderia responder:
  • .  Vejo em você o mistério
  •     – indispensável à mulher que mulher sabe ser  -;
  • .  Vejo em você a mística
  •          – que  atrai, os como eu  -;
  • .  Vejo em você o bem
  •              – escrito na testa,
  •       Que me faz bem,
  •       Que me faz muito bem  -.
  •  
  • E quando
  • Some da minha vida               
  • – quando é preciso sumir
  •   ou quando lhe dá vontade -,
  • Para me retornar, adiante
  • – quando é preciso voltar
  •    ou quando lhe dá vontade  -,
  • Sabe,
  • – como ninguém mais que conheço  –
  • Retomar da conversa o fio,
  • Fazer renascer o assunto insepulto.
  • Latente no tempo.
  •  
  • Do meu querer bem, por você,
  • A chama
  • – curta em tamanho, talvez pense,
  •    mas,
  •    infindável em vocação pra longevidade,
  •    tenha certo  –
  • Faz com que tudo seja como hoje,
  • Como ontem, ou na semana passada,
  • Ou há dois anos,
  • Ou há duas vidas,
  • Como sempre foi,
  • Como sempre é,
  • Como sempre será.
  •  
  •  
  • Pra resumir,
  • Perto de você, não me canso de ouvir, gosto de ficar,
  • Apraz-me até esperar que venha.
  • Imagine só!
  • E mesmo quando se vai, entendo,
  • Não blasfemo,
  • Chegou a hora, digo pra mim mesmo,
  • Agüento calado, porque sei que quando me volta,
  • Um ano vira um dia, ou uma noite talvez,
  • Volta tudo a ser como antes,
  • Como agora, como amanhã:
  • .  Vou sempre gostar, outra vez, de lhe ver por perto;
  • .  Vou sempre gostar, outra vez, de gostar de você.

VERSOS POÉTICOS – Paixão à Primeira Vista Praiana

  • Não sei se lhe diga, paulista.
  • Não sei se lhe confesse, baiana!
  • Fiquei, quando lhe vi,
  • De longe lhe admirando:
  • No seu tornozelo, o retilíneo, que acho bonito,
  • No seu rosto a expressão que gosto…
  • Então percebi, em você paulista-baiana,
  • Da vaidade o traço
  • – indispensável à mulher que me atrai –
  • Indo do hipoglós nas dobras do seu corpo,
  • Ao batom rubro na sua boca morena.
  •  
  • Depois procurei chegar mais perto,
  • Pra ver se ainda melhor lhe via.
  • Mas sequer me percebeu,
  • De mim não se apercebeu, sequer…
  • E não sei muito bem ir à frente, nessas horas,
  • Ganhar no bico, no falar bem.
  • Mas, em mim, a sua imagem ficou.
  •  
  • Em casa, tolo, a cara tentei mudar
  • Pra ver se na próxima vez, quem sabe, aos seus olhos melhoro
  •  E finalmente, em mim, presta atenção…
  • Conhecer-te melhor, baiana-paulista, eu gostaria.
  • Saber do seu mundo, falar do meu.
  • Poder até contar vantagem:
  • Dizer que gosto do mar, do campo e da grande cidade;
  • Que, no carnaval, da Mangueira – estação primeira – sou escravo,
  • Mas me emociono quando o azul  da portela toma conta d’avenida ;
  • Que meu coração já é recauchutado,
  • Já é de Segunda mão;
  • Que, na Graciosa, sonho bom, em forma de terra,
  • Vim viver agora.
  •  
  • Tempo bom, completo, seria se, pra mim, tempo pra mim tivesse.
  • Que, de agora em diante, estes lados de cá, pra você,
  • Muito mais valessem a pena.
  • Faça um esforcinho, paulista, me empreste seu ouvido.
  • Faça uma concessão, baiana, me empreste seu coração.
  • Vá adiante, me conte do seu hoje,
  • Dê-me trela, fale do seu amanhã.
  • Deixe-me chegar, manso, prometo, sem nenhum estandarte.
  • Prometo, também, contar das coisas que sabe que gosta.
  • Prometo, também, lhe ouvir nas coisas que não sei gostar. 

VERSOS POÉTICOS – Sonho Bom de Menina

  • Fui para te ver e te vi, menina.
  • Cheiroso, mais do que poderia,
  • Esperançoso, muito mais do que devia,
  • Tímido, como me caberia.
  •  
  • E, você, toque estético da noite,
  • – como só você aprendeu ser –
  • Trocou de roupa, me beijou, sem emoção, nem abraço,
  • Falou-me, coisas comuns, cheias de graça.
  •  
  • Depois a perdi de vista,
  • Pensei,  foi-se embora
  • –  como se tivesse sido escolhido para ir junto  –
  • Dei-me a dançar, tomado de alegre tristeza.
  •  
  • Mais tarde, no final da noite, maravilhosamente, ainda estava lá,
  • E me fez voltar, feliz pra casa,
  • Com um beijo na face, de boa noite,
  • Com um afago de até amanhã.
  • E sozinho, danei-me a fazer mais farra, querida
  • Como se me acompanhasse -.
  • E, bobo de felicidade,
  • Pra comemorar,
  • Fui tomar cerveja gelada,
  • Fui comer fatada quente,
  • Fui ouvir tolas estórias,
  • Fui dormir de manhã.
  •  
  • Volte mais, menina. Sempre!
  • Mesmo que só nos meus sonhos, como um anjo bom que é,
  • Até com falta de ar, pode ser,
  • Como me apareceu ontem, enquanto dormia, me consolando
  • Pela perda de um amor sem juízo.
  •  
  • Volte, sempre às minhas festas juninas, menina.  Sempre!
  • Meu amor por você, solitário, imaturo, inconfessável,
  • Sem perigo nem dolo, até paternal,
  • O tempo todo, todo o tempo,
  • Não vai, não foi, não quer ir embora.
  • Não arde, me acalenta,
  •  – que nem quero que vá.
  • Quero mais que fique!  –
  • Já é muito do pouco que me resta.

VERSOS POÉTICOS – Um Amor Sem Amor

  • Um amor sem amor
  • Não é amor,
  • Nem vale à pena!
  •  
  • Agora, que as nossas diferenças
  • Assomam-se em muralhas intransponíveis,
  • O meu desejo de dar certo com você,
  • Cede lugar ao de seguir meu caminho.
  •  
  • E se, do meu telefone, o seu número retirar da memória
  • E se possível da minha própria –
  • E se passar a evitar seus caminhos
  • E até de cruzar seus trajetos,
  • Não será ressentimento ou rancor.
  • Apenas o desejo de que a dor da perda do alguém,
  • Que pretendi querer pra mim
  • Passe logo,
  • Metamorfoseando o meu sentimento
  •  
  • E quando adiante se apagar,
  • Dos insatisfeitos,
  • O fogo íntimo, consumidor,
  • Melhor dizendo, da frustração de um amor sem amor
  • Que nem valeu à pena, foi pura quimera,
  • Voltarão de você lembranças boas.
  • Saberei, por fim, lhe querer bem…
  • Sem lhe querer mais pra mim.

VERSOS POÉTICOS – Sonho de Carne e Osso

  • A mulher que amarei,
  • Que amo hoje,
  • Que tenho amado,
  • Já não lembro quando ví,
  • Ou sequer, seu nome,
  • Mas, como ninguém, a conheço.
  •  
  • Sei que, às vezes, é morena,
  • Mas, outras vezes, já não é.
  • Embora exiba sempre uma boa altura
  • – do justo tamanho da sua dignidade -.
  • E, como eu, gosta do sol e do mar
  • E secretamente nutre planos de vida com eles -,
  •  
  • É, também, de ler, de escrever,
  • De conversar, de rir,
  • De passear, de dançar,… de amar.
  • Mas, leva sempre a sério o seu trabalho,
  • o seu ganha pão
  • – mesmo sabendo que outras coisas há a se fazer na vida -.
  • E, ao me ter por perto, pra mim, alegria mostra,
  • Mesmo quando cansada,
  • Mesmo quando chateada,
  • Mesmo quando resfriada.
  • E, ainda, haverá de ter, comigo,
  • Intermináveis conversas
  • – sobre tudo e sobre nada –
  • Insubstituível parceira em sonhos e planos na vida.
  •  
  • E quando quer se fazer bonita
  • – e, pra mim, todo tempo é tempo -.
  • O mundo – todinho – para um instante, pra vê-la passar.
  • É quando fico todo orgulhoso,
  • É quando vou fico todo vaidoso.
  •  
  • Nem por isso deixando de ter o devido cuidado
  • Com as coisas do meu peito,
  • Onde se incluem, coisas de toda ordem,
  • Coisas de todo tamanho,
  • Coisas de todo lugar,
  • Vez por outra repetindo,
  • Como se eu não soubesse
  • com sua voz mansa e familiar –,
  • Que gosta muito de gostar de mim.
  •  
  • E como ninguém mais no mundo
  • – exceção da minha mãe –
  • Terá o jeito firme e único de me devolver à calma
  • E até me fazer envergonhado
  • Quando, como um burro brabo,
  • Eu empacar no caminho, desconfiado,
  • E quiser escoicear,
  • Quem tentar se aproximar.
  •  
  • E, quando eu estiver triste
  • – como dizia o poeta Bandeira, triste de não ter jeito -,
  • Quando o destino vier temperar minha vida
  • Com o gosto amargo da frustração,
  • Vai saber me botar no colo,
  • Apertar-me contra o seu peito,
  • Contar-me estórias bonitas,
  • Pra minha tristeza espantar.
  •  
  • E, de quebra, um pro outro,
  • Viveremos com cuidado de não fazer nada
  • Que precise concerto.
  • De tal sorte
  • Que pedir perdão será um verbo,
  • Em nenhum tempo,
  • Em nenhuma pessoa,
  • Em nenhuma situação,
  • – por desnecessário –
  • Passível de conjugação.
  •  
  • E, finalmente,
  • Nos momentos da nossa intimidade,
  • Nos momentos do nosso amor,
  • Será a inesquecível companheira,
  • A insubstituível parceira,
  • Que o simples viver com ela,
  • Que o simples viver pra  ela,
  • Será o meu prêmio maior.

VERSOS POÉTICOS – Perdõe por Este Querer Bem

  •  Perdoe-me se, ao ler livros, revistas ou ver programas de televisão,
  • Localizo simetria dos fatos e atos no que atento com os da sua estória.
  • Perdoe-me se, ao dar de cara com vitrines de loja, identifico coisas bonitas,
  • Que em você gostaria de ver.
  • Perdoe-me se, ao acordar, de manhã, o meu pensamento sai
  • Em busca da sua imagem, querendo saber onde anda,
  • apesar de não esquecer onde vive:  no meu próprio coração.
  •  
  • Perdoe-me por querer ser o Cyrano de Bergerac de uma Roxane
  • Que em você não caberia.
  • Perdoe-me se, ao me descobrir numa loja de flores,
  • Acho que a beleza delas (flores)
  • Só será completa se a você forem destinadas.
  • Perdoe-me pelos lamentos que, em secreto, a mim faço,
  • Quando, pelas estradas, dirigindo o meu carro vejo paisagens
  • E logo percebo a sua ausência
  • No assento do lado – e na minha própria vida -.
  •  
  • Perdoe-me se não consigo lhe achar uma pessoa comum
  • – como tantas –
  • que escolhi para querer bem sem querer para mim.
  • Perdoe-me se pessoas que conhecemos lhe dizem que por você
  • Pergunto, e facilmente descobrem, mesmo que eu tente simular, O meu bem querer incontido.
  • Perdoe-me, por fim, por este querer bem
  • – que não me dá sossego e
  •     que você, talvez, nem saiba e deseje
  •     mas que o meu coração insiste em querer -.